Quem cala consente. Não?

Como qualquer outro comportamento aprendido, aprendemos a falar e aprendemos calar. E assim como qualquer outro comportamento, além das coisas que a pessoa “acredita” (autoinstruções, descrições privadas das situações etc), o que faz as pessoas manterem falas e silêncios em seu repertório comportamental para serem utilizados nas situações são as consequências que têm ao falar ou ao se calarem. Várias consequências podem suceder o comportamento de se calar, reforçando-o – inclusive a consequência de não acontecer nada.
Assim, várias pessoas se calam para que não aconteça nada, como por exemplo alguém que se cala porque discorda, mas sua opinião pode gerar uma discussão ou impressão que ele não quer causar. Outras se calam para evitar que caçoem dela ou para que não “pensem” que ela é de opiniões superficiais, burras, idiotas. Algumas se calam para evitar discussões dentro da relação amorosa. Outras se calam para irritar ou provocar o outro. E algumas pessoas calam inclusive porque consentem.
Mas mais ou tão interessante quanto analisar o silêncio de quem cala é analisar o comportamento de quem diz “quem cala consente”. Quem diz isso, raramente acha que realmente quem calou consentiu. Quem diz isso pode dizê-lo para provocar o outro a dizer o que pensa, porque está irritado com o silêncio do outro e quer que isso acabe, porque quer tirar do outro o direito a reclamações futuras e tantos outros motivos (consequências).
Assim como a fala, o silêncio tem função, ou melhor, várias funções.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. BAUM, W. (1999). Compreender o Behaviorismo. Artes Médicas.
  2. SKINNER, B. F. (1974). O Comportamento Verbal. São Paulo: Cultrix.


O Inferno são os Outros!(?)

Analisando a situação social do homem, o historiador israelense Yuval Harari afirma em seu livro 21 Lições Para o Século 21 que “Os humanos são animais sociais, e daí que sua felicidade depende em grande medida de seus relacionamentos com outros”. Também atribuindo grande importância para as relações, o filósofo francês Jean Paul Sartre escreve uma peça em 1944 intitulada Entre Quatro Paredes em que três pessoas, depois da morte, são levadas a ficarem em uma sala, em confinamento. Não passa muito tempo de convivência e um deles chega à conclusão que “O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno… são os outros!”.

As pessoas não são felicidade ou inferno em si, mas obviamente são potenciais fontes desses sentimentos. Com elas nos relacionamos, e essas relações têm consequências que podem ser pouco importantes, mas também podem ser felizes ou infernais. E o mais sério: cada nova relação traz, raramente de forma consciente, nosso hitórico das relações passadas, desde as mais primórdias às mais recentes. Por fim, quem se relaciona conosco, se relaciona com todo o nosso histórico de vida, enquanto que fazemos o mesmo quando nos relacionamos: nós reagimos ao nosso próprio histórico e à pessoa e seu histórico de relações. É um emaranhado tão grande de contingências pelas quais já passamos, como agimos lá, que consequências das mais sutis às mais nítidas agiram sobre nossa própria ação, nos tornando quem somos agora. Nada é tão simples.

Harari é exato quando diz que somos “animais socais” e que a nossa felicidade depende “em grande medida” (já que também depende de circustâncias materiais e biológicas) dos nossos “relacionamentos”, e não necessariamente que depende dos outros. Se Harari tivesse escrito juntamente com Skinner a peça Entre Quatro Paredes, provavelmente, no lugar de “O inferno são os outros” estaria escrito “O inferno é o produto emocional de contingências (relacionamentos) cujas consequências são continuamente aversivas”.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. SKINNER, B. F. (1991). Questões recentes na análise comportamental. Campinas, SP: Papirus.
  2. HARARI, N. Y. (2018). 21 lições para o século 21. Tradução de Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras.
  3. SARTRE, J. P. (2008). Entre Quatro Paredes. 4ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Sempre temos outra opção

Se há algo que sempre me chama atenção em filmes e séries é a frequência com que frases como “você não me deixou opção”, “eu não tive opção” ou “eu não tive outra escolha” são usadas. E me chama a atenção por não ser uma frase que remete à realidade humana e é usada de má-fé. O fato é que cada comportamento nosso é um comportamento de escolha e, em vez de estar fazendo o que estamos fazendo, poderíamos estar fazendo alguma outra coisa. Parece que sempre temos escolha. E é aqui que você que me lê pode começar a discordar? Na verdade, em cada situação sempre temos escolha, às vezes mais opções, às vezes menos, mas sempre temos. Vou eximir aqui pessoas que estejam em casos clínicos excepcionais, como os que estão em coma. Mas me lembro que no filme Menina de Ouro (um filme de Clint Estwood, 2004) a protagonista, uma lutadora de boxe, sofre um acidente durante uma luta e perde todos os motimentos do corpo, ficando apenas com os movimentos do rosto funcionando. Ainda assim, ela tinha opções: viver ou morrer. Mas como se mataria se ninguém a ajudasse? Uma das opções que ela encontrou foi mastigar a própria língua. Sei que a cena é pesada, mas é assim a condição humana. Diante de cada situação, temos escolhas. Talvez, não queiramos assumir que elas existam, mas isso já é uma escolha: escolho uma das opções ou escolho dizer que não havia outra – mas havia. E se fazemos isso, fazemos de má-fé, para não assumir que as consequências do que escolhi foram fruto da minha escolha. E se trata disso: o peso das escolhas não está na beleza das possibilidades, mas em ter que assumir as consequências do que se escolhe. Até diante de ameaças do tipo: “faça isso ou eu atiro em você”, o próprio ameaçador está dizendo que você tem opção e qual será a consequência se você escolher a opção que o desagrada.

Pense nisso na próxima vez que assistir um filme ou série e ouvir “você não me deixou opção”, “eu não tive opção” ou “eu não tive outra escolha”. E quando agir de uma certa forma, o fato é que o fez por conta de não querer arcar com os custos ou as consequências da outra opção.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. SARTRE, J. P. (1973). O Existencialismo é um Humanismo. Coleção Os Pensadores – Vol. 45. São Paulo: Abril Cultural.
  2. SKINNER, B. F. (2000). Ciência e comportamento humano. Tradução de J.C Todorov e R. Azzi. São Paulo: Martins Fontes.