(Pre)ocupe-se

A palavra preocupar já traz implícito seu significado – ocupar-se antecipadamente. E se preocupar tem uma função muito importante: resolver um problema que espera adiante. Preocupar nos direciona a pensar em possíveis soluções e colocá-las em ação. Nesse caso, ocupe-se com antecedência! Vale a pena. Mas existem problemas que não estão sob nosso controle, que já pensamos se tem algo que possamos fazer e depois de revisarmos uma, duas, três vezes, percebemos que não tem nada que possamos fazer. Qual o sentido de ficar se ocupando de algo que não mudará a partir de nós? Qual o sentido do desgaste e da ansiedade que isso pode gerar? Por que ficar conversando com a gente mesmo repetidas e repetidas vezes sobre o problema? Claro que esse comportamento de se preocupar (ficar procurando soluções) diante de situações assim também tem suas funções: nos dá a impressão de que estamos fazendo algo a respeito, alimenta a esperança de que podemos achar uma solução etc. A questão é se vale o custo que ele cobra. E preocupar cobra caro.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestão de leitura

  1. BANACO, R. A. (1997). Auto-regras e patologia comportamental. Em: D. R. Zamignani (org.), Sobre comportamento e cognição: a aplicação de análise do comportamento e da terapia cognitivo-comportamental no hospital geral e nos transtornos psiquiátricos. Santo André: Arbytes, pp. 80-88.

Resolução de Problemas Solucionáveis

Já se sabe que há uma maneira mais eficiente de pensar em soluções e resolver problemas importantes: sistematizando os processos. O primeiro passo é formular o problema de maneira clara e específica. Muitas vezes, o problema nos incomoda, mas nem paramos para identificar claramente qual é o problema. Geralmente, o problema pode ser descrito como “sabemos onde queremos chegar, mas não sabemos como fazer”. Tente colocá-lo nesses termos. Em seguida, faça um brainstorm, faça uma lista com maior número possível de soluções, mesmo aquelas que parecem improváveis ou muito difíceis – ainda sem aplicá-las. Depois, avalie os prós e contras de cada solução, considerando o quanto elas podem ser eficazes, o custo e a possibilidade. Então, depois que elas forem hierarquizadas da melhor para a pior estratégia, escolha a primeira e formule o plano de como aplicá-la. Essa parte é importante. Isso de “então, vou fazer isso” funciona menos que “vou fazer isso, desta forma, em tal dia, hora, local, utilizando tais recursos e essas pessoas (se for o caso)”. Por fim, coloque o plano em ação. Pode ser que funcione ou não, ou que funcione parcialmente. Depois de tudo isso, faça essa avaliação. Não tendo funcionado, existe a opção de reaplicar o mesmo plano corrigindo-o no que for necessário ou aplicar as próximas estratégias da lista, pois assim, você tem uma lista de possíveis soluções. Mas não se esqueça: há problemas sem solução. Para eles, vale um texto à parte.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestão de leitura

  1. WRIGHT, J. H; SUDAK, D. M; TURKINGTON, D.; THASE, M. E. (2012) Terapia Cognitivo-comportamental de alto rendimento para sessões breves: Guia ilustrado. Porto Alegre: Artmed.

Quanto custa escolher?

Eu escrevi em um texto anterior afirmando que sempre temos escolhas, em todas as situações. Não querer arcar com ou assumir as consequências da escolha pode fazer com que cometamos um ato de má-fé de dizer que fizemos o que fizemos porque não tínhamos outra escolha – o que não é verdade.

Mas há outra opção que nos faz esquivar de assumir que fomos nós quem escolhemos: não querer lidar com os custos da nossa escolha. O que fazemos pode ter um custo mais baixo ou mais alto. Posso dizer que trabalho em uma profissão que não gosto porque não tenho outra opção, é só o que sei fazer na vida. Na verdade, eu escolho continuar naquele trabalho porque o custo de aprender uma nova profissão, gastar tempo, dinheiro, dedicação estudando, às vezes, fora do horário de trabalho para não ficar sem renda pode ser um custo muito alto que eu não queira pagar. É assim que funcionamos: o tempo todo calculando o custo-benefício do que vamos escolher, seja consciente ou inconscientemente. E quando os custos são altos e as consequências, os ganhos só virão à longo prazo, se vierem, a probabilidade de escolhermos essa opção cai drasticamente. Mas ainda assim a opção está lá.

Podemos querer enganar a nós ou aos outros dizendo que não tínhamos escolha, mas já estaríamos escolhendo nos enganar. Ou podemos fazer escolhas identificando as opções e os motivos para isso, seja pelas consequência ou pelo custo. São opções. Sair do papel de vítima das situações tem seus custos e suas consequências – que às vezes não queremos arcar.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestão de leitura

  1. SOARES, P. G. et al. (2017) Custo da resposta: Como tem sido definido e estudado?. Perspectivas,  São Paulo ,  v. 8, n. 2, p. 258-268.

Sempre temos outra opção

Se há algo que sempre me chama atenção em filmes e séries é a frequência com que frases como “você não me deixou opção”, “eu não tive opção” ou “eu não tive outra escolha” são usadas. E me chama a atenção por não ser uma frase que remete à realidade humana e é usada de má-fé. O fato é que cada comportamento nosso é um comportamento de escolha e, em vez de estar fazendo o que estamos fazendo, poderíamos estar fazendo alguma outra coisa. Parece que sempre temos escolha. E é aqui que você que me lê pode começar a discordar? Na verdade, em cada situação sempre temos escolha, às vezes mais opções, às vezes menos, mas sempre temos. Vou eximir aqui pessoas que estejam em casos clínicos excepcionais, como os que estão em coma. Mas me lembro que no filme Menina de Ouro (um filme de Clint Estwood, 2004) a protagonista, uma lutadora de boxe, sofre um acidente durante uma luta e perde todos os motimentos do corpo, ficando apenas com os movimentos do rosto funcionando. Ainda assim, ela tinha opções: viver ou morrer. Mas como se mataria se ninguém a ajudasse? Uma das opções que ela encontrou foi mastigar a própria língua. Sei que a cena é pesada, mas é assim a condição humana. Diante de cada situação, temos escolhas. Talvez, não queiramos assumir que elas existam, mas isso já é uma escolha: escolho uma das opções ou escolho dizer que não havia outra – mas havia. E se fazemos isso, fazemos de má-fé, para não assumir que as consequências do que escolhi foram fruto da minha escolha. E se trata disso: o peso das escolhas não está na beleza das possibilidades, mas em ter que assumir as consequências do que se escolhe. Até diante de ameaças do tipo: “faça isso ou eu atiro em você”, o próprio ameaçador está dizendo que você tem opção e qual será a consequência se você escolher a opção que o desagrada.

Pense nisso na próxima vez que assistir um filme ou série e ouvir “você não me deixou opção”, “eu não tive opção” ou “eu não tive outra escolha”. E quando agir de uma certa forma, o fato é que o fez por conta de não querer arcar com os custos ou as consequências da outra opção.

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Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. SARTRE, J. P. (1973). O Existencialismo é um Humanismo. Coleção Os Pensadores – Vol. 45. São Paulo: Abril Cultural.
  2. SKINNER, B. F. (2000). Ciência e comportamento humano. Tradução de J.C Todorov e R. Azzi. São Paulo: Martins Fontes.

Os Conflitos estão nas situações

Estamos sempre fazendo escolhas. Algumas são triviais, outras importantes, algumas são simples, outras são complexas. Vão desde “termino de assistir esse filme e depois vou ao banheiro ou vou agora que me deu vontade?” até “aceito ou não desligar os aparelhos que mantém meu pai vivo, mesmo sem possibilidade de reversão do quadro clínico dele?”. É diante de escolhas importantes que surgem conflitos sobre que opção escolher.

Os conflitos parecem ser internos porque pensamos sobre eles e como resolvê-los (e pensar é uma atividade privada) e porque sentimos coisas enquanto estamos nessa situação (e sentir, novamente é uma atividade privada, que ocorre pele adentro). Mas se prestarmos mais atenção, percebemos que os conflitos que temos são conflitos da nossa relação com algo externo: ir ao banheiro, ficar assistindo o filme, desligar os aparelhos médicos, ter a presença precário do meu pai mais um tempo etc.

Os conflitos ocorrem em três tipos de situações de acordo com as consequências que podem ter. A primeira são situações em que existem opções em que as consequências são boas independente do que se escolha, mas escolhendo uma, automaticamente, se perde a outra. Viajar nas férias ou trocar de carro? Ir ao show da banda preferida na cidade vizinha ou ao casamento do melhor amigo? Este é o conflito menos ruim porque estamos escolhendo entre coisas que gostaríamos, e só se torna um problema se a escolha que eu fizer der errado. Se eu viajar e a viajem for péssima, se eu for ao show e chover e o show ser interrompido na metade. O segundo tipo de conflito é o oposto: em que ambas opções terão consequêcias ruins, como escolher entre entregar os bens a dois assaltantes desarmados ou tentar resistir/fugir correndo o risco de ser agredido e perder os bens – como dizem, escolher entre a cruz e a espada, expressão que remete aos opositores do regime romano no primeiro século que precisavam escolher entre desafiar em luta a espada dos soldados ou se entregarem à crucificação como criminosos. O terceiro tipo de conflito diz respeito à opção em que a escolha leva ao mesmo tempo a consequências positivas e negativas importantes. Para alguns, o casamento é uma escolha assim. Escolher trabalhar em um segundo emprego é outro exemplo: teremos mais dinheiro, porém mais cansaço e menos tempo para coisas que podem ser importantes.

O objetivo aqui não é discutir qual a melhor escolha nessas situações, nem necessariamente como escolher, mas aprender olhar de forma mais consciente de onde vêm os conflitos que sentimos como internos. Claro que nossas crenças e valores estão implícitos nos conflitos, mas não como causa deles, senão como o que faz as consequências das nossas escolhas serem vistas como positivas ou negativas, tema a que podemos voltar com a atenção merecida em uma futura conversa.

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Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
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Sugestão de leitura

  1. Rangé, B. P. (1995). Bases filosóficas, históricas e teóricas da psicoterapia comportamental e cognitiva. In: (Rangé, org). Psicoterapia comportamental e cognitivo

Procrastina quem pode

Procrastinação é mais que o adiamento de uma tarefa chata. É a troca de uma tarefa trabalhosa, difícil, chata, que tem prazo para ser entregue (e não é agora) e que se não fizermos, teremos consequências negativas, punitivas, prejudiciais por uma tarefa que gostamos, que não dá trabalho algum para fazer e que tem consequências imediatas prazerosas. Assim, trocamos uma pia cheia de louças para lavar por um episódio de nossa série do momento, trocamos nosso trabalho de conclusão de curso (TCC) por ficar deitado ouvindo música.
A questão é que essa troca funciona: não ficaremos sem comer. Quando não tiver mais louça limpa, lavamos um prato. Quando estiver bem próximo da data da entrega do TCC, viramos noite e entregamos. Nunca será com a mesma qualidade se tivéssemos feito com calma, mas entregaremos.


Mas o que adiamos, continua lá nos aguardando para ser feito e com um adicional: geralmente, nos ocupa ou preocupa durante esse intervalo. Ficamos chateados por estarmos adiando; curtimos o filme e a preguiça, mas sentimos culpa. Aos que não têm problemas práticos (consegue fazer de última hora) e não sentem-se mal, o problema está resolvido. Ao restante, há algo a ser dito.
Alguns pontos contribuem para que tenhamos resistência em fazer algumas tarefas: (1) o quanto ela é trabalhosa, (2) falta de planejamento e (3) falta de clareza na realização do planejamento. Escrever um TCC é um trabalho longo, composto por várias tarefas como: entrar na internet e procurar artigos, imprimi-los, ler dezenas de artigos grifando partes importantes e fazendo anotações, só então, começar a escrever o próprio trabalho. Diante de um trabalho tão grande, soma-se a falta de planejamento ou planejamentos imprecisos como “amanhã, tenho que mexer no TCC”.
Como aumentar as chances disso dar certo? Desmembrar o “mexer no TCC” em várias pequenas tarefas, como foi feito ali acima já ajuda sairmos de uma tarefa enorme para várias tarefas pequenas. Despreocupamos de todas as outra e selecionamos a primeira. Diante da primeira tarefa, vem o planejamento objetivo: amanhã, às 17h, vou ligar o computador e procurar artigos cujo assunto seja tal (o tema do TCC) e salvar na pasta “Artigos para o TCC”. Separe um tempo não muito longo para isso, de 30 a 60 minutos, por exemplo. Terminado, faça alguma daquelas tarefas que gosta: assistir um episódio da série, ficar deitado ouvindo música, etc. Sobre a pia cheia de louças para lavar, um opção na divisão das tarefas é dividir por utensílios. Lavar apenas alguns copos ou apenas uma penela. Depois de horas ou no dia seguinte, lavar apenas alguns pratos. Isso pode ser feito ouvindo música ou um podcast.
Lembre-se: tarefas pequenas, objetivas e intercaladas com atividades prazerosas causam menos resistência.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. KERBAUY, R. (1997). Procrastinação: Adiamento de tarefas. In: R. A. Banaco (Org.), Sobre o comportamento e cognição: Aspectos teóricos, metodológicos e de formação em análise do comportamento clínico e terapia cognitiva (pp. 393-398), Santo André, SP: ESETec Editores Associados.

Ansiedade é algo bom (e desagradável)

Talvez, a queixa mais recorrente no consultório de psicologia atualmente seja a ansiedade. Quando ela não é o principal motivo que leva a pessoa a procurar terapia, por certo, ela está presente secundariamente em outras demandas: em problemas conjugais, no trabalho, na faculdade, relacionamentos amorosos, etc.

E parece que por alguns motivos culturais ocorreram dois processos em relação à ansiedade. O primeiro é uma maior intolerância à ansiedade de forma geral – por ela ser desagradável – e consequência disso, uma classificação de toda ansiedade como uma doença.

Porém, a ansiedade é algo “bom”, é uma reação a situações de risco ou perigo em potencial. É uma preparação do nosso organismo a essas situações, com o objetivo imediato de fuga ou enfrentamento. Sua função fica muito mais nítida quando olhamos situações mais primitivas, quando ainda não tínhamos a garantia de um teto sobre nossas cabeças ou do alimento para a próxima refeição e éramos cercados de perigos imediatos. Diante de um sinal de risco – um som que sinalizasse uma tribo inimiga na floresta enquanto procurávamos nosso alimento – nosso cérebro enviava um sinal para glândulas específicas que nos preparavam para fugir ou atacar. Nosso coração e nossa respiração aceleravam oxigenando mais os grandes músculos que, por sua vez ficavam mais irrigados. O sangue migrava de algumas partes do corpo para outras. Nosso sistema digestivo dava sinais de que queria se esvaziar, começávamos a suar, entre tantas outras preparações. Ainda hoje, nosso corpo reage assim. Porém os riscos atuais são menos imediatos: uma entrevista de emprego, um seminário para apresentar, uma prova de concurso, um problema para resolver no trabalho ou com o cônjuge. No entanto, nosso corpo continua a nos preparar de forma idêntica à que fazia há centenas ou milhares de anos. Existem sinais que apontam para esse risco, às vezes, em forma de elos, como a vinheta de abertura do programa televisivo de domingo à noite pode nos sinalizar que o fim de semana acabou, que amanhã é segunda, que tem um trabalho para ser entregue na terça e eu nem peguei no material. Mesmo sem “lembrar” disso tudo, pode surgir uma ansiedade no domingo à noite sem que eu perceba diretamente o motivo. Mas isso não é doença. Pelo contrário. Significa que meu organismo está funcionando perfeitamente – e é hora de enfrentar o trabalho!

Algo ser desagradável não significa que algo esteja errado. Sentir um enorme frio é desagradável, mas serve para nos levar a agasalhar. Sentir que algo nos queima é desagradável, mas sinaliza que devemos nos proteger. Com a ansiedade é igual.Porém, a ansiedade se torna um problema quando, em vez de ela nos preparar para um problema que devemos resolver e nos mobilizar a isso, ela nos paralisa. Ela também é um problema quando o que temos que resolver não é um problema real, mas uma descrição errada que fazemos sobre o risco. E por fim, quando ela aponta para algo que não tem solução. No Transtorno de Ansiedade, esses fatores aparecem juntos. Geralmente, a terapia tem excelentes resultados nesses casos.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. COELHO, Nilzabeth Leite, & TOURINHO, Emmanuel Zagury. (2008). O conceito de ansiedade na análise do comportamento. Psicologia: Reflexão e Crítica, 21(2), 171-178.

Suicídio: uma análise do contexto

Apenas reconhecendo a existência de pressões coercitivas teremos uma chance de resolver o problema último de desistir (Sidman, M. 2001 p.134)

Vou aqui classificar os motivos comportamentais pelos quais as pessoas desistem da própria vida, em três grandes grupos, inicialmente. Essa classificação é arbitrária e muito variável, dependendo do autor, podendo ser dividida inclusive a partir de aspectos diferentes, como no caso do sociólogo Èmilie Durkheim, do historiador italiano Marzo Barbagli e outros.

O primeiro grupo é resultado de ambientes altamente punitivos. Diante de situações aversivas, coercitivas, punitivas, uma das possibilidades mais correntes é a de fuga ou esquiva da situação. O suicídio é a última fuga de coerções esmagadoras, é a fuga em sua representação maior.

O segundo grupo é resultado da impossibilidade de alcançar seus objetivos, acompanhado por sensações de frustração e incapacidade. Demandas não passíveis de serem satisfeitas e exigências absurdas são fontes de sentimentos de culpa e indignidade. Não alcançando o que é esperado ou cobrado dela, a pessoa se sente péssima por não conseguir. Além de exigências inalcançáveis, há também situações em que o que é cobrado não pode ser alcançado imediatamente por conta da inabilidade, da falta de repertório para resolver. Como quem cobra o faz em uma situação em que não há possilidade de a pessoa se habilitar, aprender, se capacitar, a pessoa sente que é ela mesma um fracasso – age, se esforça, mas não alcança o que deseja ou é simplesmente punida ao tentar. O próprio esforço se torna sinal para punição, logo, a própria tentativa se torna punitiva – e só há uma forma de escapar de si mesma.

Um terceiro grupo, que não é em si um motivo “puro”, mas consequência dos dois anteriores é o suicídio em que a pessoa deseja punir pessoas que a fizeram se sentir como se sente – ou que pelo menos ela julga culpados. O próprio suicídio é, desta forma, uma coerção (contracontrole), um instrumento de punição para a família, amigos, sociedade (agentes punitivos).

As sensações de não pertencimento, de exclusão, de que não se encaixa em lugar algum, assim como a falta de sentido em tentar podem estar frequentemente presentes e acentuarem as sensações de pressão, fracasso, inutilidade. Mas não foram tratadas aqui como um grupo à parte, senão como contingências que estão presentes nos grupos acima. Elas promovem a falta de segurança, confiança, (rede) de apoio, resultado de formulações e descrições que a pessoa faz de si, do mundo e das situações. Elas merecem uma análise à parte.

Assim como qualquer outro comportamento, existe uma multicausação no suicídio pela sobreposição de fatores filogenéticos (biológicos), passando por fatores sociais (relacionamentos), históricos (a história de vida) e condições materiais. O que foi posto aqui tem o sentido de combater com vigor a banalização dos motivos de quem decide finalizar a própria existência. A banalização através de rotulações morais e depreciação da pessoa (julgada como fraca, sem personalidade, sem fé) em nada contribui com os que sofrem de forma tão intensa e honesta a ponto de desejarem a não-existência.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. BARBAGLI, Marzio. (2019). O Suicídio no Ocidente e no Oriente. Trad. Frederico Carotti. Petrópolis: Editora Vozes.
  2. DURKHEIM, Èmilie. (1999). O Suicídio: estudo de sociologia. Trad. Monica Stahel. São Paulo: WMF Martins Fontes.
  3. SIDMAN, Murray (2001). Coerção e suas implicações. Trad. Maria Amália Andery & Tereza Maria Sério. Campinas: Livro Pleno.

Medo de Amar

Não temos medo de amar.

O medo é uma sensação que temos diante de situações perigosas, arriscadas, e que aprendemos que são assim porque já passamos por situações similares antes, porque observamos pessoas passando por situações em que sofreram ou que nos contaram – seja pessoalmente, por vídeos, por textos etc.

Temos medo de que não nos amem quando estivermos amando. Ou de que nos frustremos enquanto estivermos amando. Temos medo de não sermos aceitos, queridos, desejados. Temos medo de gastarmos tempo e esforço em uma relaçao e ela não dar em nada mais adiante. Medo de descobrir que não somos suficiente para alguém (ilusão criada pela crença de que somos responsáveis por fazer o outro feliz). Não necessariamente temos medo de gostar. Porque se tivéssemos garantias (e não existe nenhuma) de que, ao gostarmos ou amarmos, seriamos queridos, aceitos e amados igualmente, com total entrega e sinceridade de sentimentos e que nunca nos frustraríamos com aquele amor, não sentiríamos medo

Se eu fosse um ratinho, eu diria: não tenho medo de comer queijo – tenho medo de me meter na ratoeira atrás do queijo.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. SIDMAN, Murray (2001). Coerção e suas implicações. Trad. Maria Amália Andery & Tereza Maria Sério. Campinas: Livro Pleno.

4 Obras sobre Suicídio

Quatro obras riquíssimas sobre um tema de absoluta relevância clínica e humana


História do Suicídio – Georges Minois “a questão de fundo (do suicídio) pouco avançou, e não avançará enquanto se admitir tacitamente que é óbvio que viver a qualquer preço é melhor que a morte” p.410
O Suicídio no Ocidente e no Oriente – Marzio Barbagli “O que nos desperta tristeza ou alegria não é só uma situação ou um evento, mas o significado e o valor que lhe atribuímos” p.18
Sobre o Suicídio – Karl Marx “Não é com insultos aos mortos que se enfrenta uma questão tão controversa” “o mesmo acontecimento provoca um sentimento imperceptível em alguns e uma dor violenta em outros” p.25
O Suicídio – Èmilie Durkheim “Esse número excepcionalmente elevado de mortes voluntárias prova o estado de perturbação profunda de que sofrem as sociedades civilizadas, e atesta sua gravidade” p. 512

Tristeza ainda existe

Sorrisos, creme dental e tudo,
e por que é que a felicidade
anda me bombardeando?
diga, Zezé.

É pra provar que ninguém mais tem
o direito de ser infeliz,
viu, Dodó?

Tom Zé, na música Dodó e Zezé (1973)

Se eu perguntar “Ainda existe tristeza?” vai soar estranho?

Olhando ao redor, a tristeza vem sendo cada dia mais substituída pela depressão. Não é que as pessoas estejam deixando de ficar simplesmente tristes e passando a estar cada vez mais deprimidas. Mas ao que tudo evidencia, existe uma confusão ou preferência de tratar essas duas coisas como uma só ou de que, preferencialmente, quando o humor de alguém está para baixo, que isso seja sempre depressão e nunca tristeza.

O ser humano sadio (não que existe um ponto exato em que algo deixa de ser “saúde” e passa a ser “doença”) é aquele que diante de coisas “boas” se sente feliz, diante de situações constrangedoras sente vergonha, diante de situações arriscadas sente medo, e diante de situações de perdas sente-se triste. Nesse sentido, diante da perda de um emprego que gostava, de um relacionamento que era importante, diante da morte de uma pessoa querida é normal que a pessoa sinta-se triste. Os casos onde fica clara a doença, um transtorno ou algo do tipo são exatamente os casos em que o contexto e a reação não são coerentes. Imagine uma pessoa diante da perda de um emprego que lhe era importante, da morte de uma pessoa amada, que essa pessoa não pare de rir e se sentir eufórica, empolgada, animada. Imagine o contrário, alguém que, por mais tudo esteja indo bem – os relacionamento que são importantes para ela, ganhou aumento no emprego, ganhou algum prêmio que queria – sente-se triste, sem ânimo, chorosa, com vontade de estar morta ou até de se matar. O primeiro caso pode configurar, observados outros sintomas, um caso de crise de mania em um Transtorno Bipolar. O segundo caso pode configurar, também observados outros sintomas, um Transtorno Depressivo, por exemplo.

Existem várias hipóteses sobre porque até os casos de reações “normais” de tristeza estejam sendo tratados como transtorno, como doença, como patologia. Mas essa discussão fica para um outro texto. A questão é que perdas importantes nos levam a uma reação normal de tristeza ou a uma reação de tristeza normal. Com ressalva às palavras usadas, se estamos reagindo assim é sinal de saúde mental e não o contrário.

Mas isso faz surgir uma outra questão, porque se a tristeza é tratada como depressão, como uma doença mesmo quando não é, isso sugere que ela deve ser tratada. Sendo assim, a segunda pergunta que pode parecer estranha é “Sentir tristeza ainda é permitido?”. Os livros de auto-ajuda (se você está comprando um livro para te ajudar, essa ajuda não é “auto”), as redes sociais que idolatram a felicidade e que mostram que todos estão felizes o tempo todo, que punem qualquer sinal de tristeza ou sensação negativa parecem ter transformado a felicidade em obrigação e não em uma possibilidade – que tem custos e é temporária.

Esse pequeno texto (o nosso momento histórico trata qualquer texto com mais de 140 caracteres como textão) é uma simples intenção de lembrar: se você está feliz diante de situações boas para você, com raiva diante de situações injustas, apaixonado diante de situações apaixonantes e triste diante de situações de perdas importantes, você está saudável, você está funcionando bem.

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Sugestões de leitura

  1. HORWITZ, A. V.; WAKEFIELD, J. C. (2010). A tristeza perdida: como a psiquiatria transformou a depressão em moda. São Paulo: Summus.


O consultório é um lugar de análise

O consultório é um lugar de análise. Que fatores imediatos ou passados, concretos ou simbólicos levam a pessoa a agir como age? Quais as consequências surgem desse modo de agir, que significado ou valor ele tem para a pessoa? O que ela está disposta a fazer para mudar o que deseja mudar depois de saber porque age assim e quais as consequências já presentes ou que podem vir a ocorrer? Ou seja, não é um lugar em que o terapeuta está como um “respondedor” das questões de quem o procura, mas quase o contrário, é o lugar em que o terapeuta faz surgir as questões que levam à essa análise para que a pessoa decida como agir em relação à própria vida.
Aí, surgem dois pontos importantes. Primeiro, quando a pessoa escolhe, consciente de sua escolha, ela aumenta sua autonomia, mas principalmente sua responsabilidade sobre as suas escolhas e, consequentemente, sobre as consequências que terá que arcar pelas escolhas feitas. Segundo, para um terapeuta que não assume esta postura, pode ser um drama ver o cliente fazer escolhas que podem levar a consequências danosas à médio e longo prazo. Ou o terapeuta não entendeu o processo da análise e seu resultado – que a pessoa tem seus motivadores para fazer essas escolhas e todos eles são legítimos – ou assume o papel leigo de aconselhador, onde vale o “no seu lugar eu faria isso” e desrespeita por completo a lógica de que é impossível estar no lugar do outro. Ou seja, o terapeuta fala de si, usurpando o lugar do cliente/paciente.
Fazer terapia custa caro em vários sentidos, mas o mais caro e valioso é o preço de ser responsável por suas escolhas cada vez mais, no sentido em que avança sua consciência sobre os fatores que influenciam como ela age.

 

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Sugestões de leitura

  1. CALLIGARIS, C. (2008). Cartas a um jovem terapeuta. Rio de Janeiro: Elsevier.

Eu não sou bonito, mas…

Eu sou feio. E não tem problema. Não é minha melhor característica mesmo. Tenho outras que talvez valham mais que essa, pelo menos para mim: me procupo em não fazer mal propositadamente às pessoas, tento usar a educação que minha mãe me ensinou, busco ser honesto, alimento minha fome por cultura com livros que considero bons, filmes, séries, documentários, gosto de aprender coisas novas, sou divertido, calmo. Não é meu objetivo ficar advogando em causa própria. Mas não acho que beleza seja a maior qualidade de uma pessoa. Se for, essa pessoa deve ser bem desinteressante, ou interessante para poucas pessoas. E é incrível como quando conversos com as pessoas sobre o que elas gostam em seus amigos, seus pais, nas pessoas amadas, elas citam características que não têm a ver com as características físicas. Parece que esse não é mesmo o atributo que mais valorizamos em uma pessoa.

Além do que, quando uma pessoa é divertida, culta, se esforça para manter a calma em situações difíceis, é uma boa amiga, etc, estamos falando de características que são mérito dessa pessoa. Enquanto que quando falamos de caraterísticas físicas, estamos falando de algo que, ainda que alguém considere importante, não é mérito de quem a tem (não entrarei na discussão sobre cuidados com o corpo, maquiagens e vestimentas). Parece com alguém que acha ser qualidade ter nascido em algum lugar específico, e me recordo do gande humorista português Ricardo Araújo Pereira que, em um texto maravilhoso diz: “Nutro sincero fascínio por quem se orgulha do sítio em que nasceu. Pessoalmente, tenho dificuldade em orgulhar-me das coisas que me acontecem por casualidade”.

Nos dias atuais, há um combate contra a ditadura da beleza que ao meu ver se justifica muito. Afinal, as imposições de beleza sempre partem de padrões absurdos, crués e questionáveis. Deixarei para outro texto o que é belo ou não e como a beleza varia dependendo muito do lugar, época , cultura, etc. A questão é que essa luta antiditatorial, raras, mas agudas vezes, dá um tiro pela colatra que sempre acerta o próprio pé. Eis a frase ruim: Não ligue para as capas de revista (até aí tudo bem. Mas completa…) Você é linda!“. Quando se diz isso, está afirmando exatamente o contrário do que se combate: que a beleza física é importante. E o pior: com frequência, as pessoas tem uma noção de beleza física (repito que o que beleza signfica não cabe nesse texto) e de que essa não é uma característica que elas carregam. Alguém argumentaria de que essa frase está falando de outros tipos de beleza, mas isso não é verdade. Senão, ela diria: você não é bonita fisicamente, mas tem o caráter exuberante. E não é isso que ela diz, e nem é nesses contextos. É exatamente usando a capa da revista (que não tem fotos do caráter da modelo) como referência.

Sem estender mais, acho que quem tem alguma intenção de combater os padrões de beleza em prol das qualidades humanas que realmente importam para a maioria das pessoas e na maioria das relações deveria mudar o mote para: Não ligue para as capas de revista. Existem dezenas de características humanas mais importantes que a beleza física. Além do que a capa de revista é pura manipulação digital das fotos. Esse sim, o artista que manipula tão bem o Photoshop tem uma qualidade que é mérito dele e do qual ele deve se orgulhar.

 

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
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O amor faz mal?

O nome que se dá as coisas, com frequência, diminui muito a possibilidade que temos de analisar o que ocorre e seus efeitos sobre quem está envolvido. Rótulos como patriotismo, honra, coragem, sinceridade, amor, entre centenas de outros, faz com que, ao usá-los ou ouvi-los, simplesmente os consideremos bons ou ruins, ou consideramos que eles tem um efeito ou outro, sem nem sequer fazer uma mínima análise sobre eles. Ou alguém diria que coragem é algo ruim?

Só tomando o termo “coragem” para fazer uma pequena análise, corajoso é quem não tem medo? Ou corajoso é quem tem medo, mas supera esse medo e avança apesar dele? Coragem é sempre bom? E se um homem desarmado tiver coragem de enfrentar um urso pardo? Ou coragem de atravessar uma rodovia de alta velocidade e movimentada sem olhar para os lados? Ou até mesmo coragem de entrar em uma comunidade, sem colete, e andar por suas ruas, entre tiros cruzados, em um dia de tiroteio entre a polícia e traficantes? Podemos concluir duas coisas, que (1) o conceito de coragem pode mudar de uma pessoa para outra, ainda que, dentro de uma mesma cultura, esse conceito coincida em muitos aspectos, para pessoas diferentes e que (2) coragem pode ser algo bom ou ruim se passamos a analisar as consequências que a utilização da coragem pode trazer para a pessoa em cada situação em particular.

O amor já passou pelo crivo de análises importantes ao longo te toda a história – pelo menos de análise sobre “o que é o amor” (um exemplo clássico é a análise do texto grego O Banquete , de Platão). Talvez, fruto dessas análises, encontradas algumas respostas, tais respostas sejam assimiladas e, pelo menos para o indivíduo dentro de um grupo onde essa explicação já foi dada, voltar a analisar o que é o amor, não seja importante ou frequente. A segunda análise – se o amor é bom ou ruim, é uma análise ainda menos frequente e é, geralmente, condicionada a um valor moral já pré estabelecido.

Mas, sem complicações (pelo menos, esse é meu sincero intuito), vou iniciar aqui uma pequena análise baseada, em certa parcela, no que ouço sobre o amor na rotina do meu trabalho.

Sempre que estamos falando sobre algum fenômeno natural humano (aqui, uso o termo ‘natural’ em contraposição ao termo ‘sobrenatural’), é bom que percebamos pelo menos três aspectos desse fenômeno: as ações que estão implicadas (como a pessoa age), a parte cognitiva (como a pessoa pensa) e as emoções (como a pessoa se sente). Porém, é frequente que as análises, no dia-a-dia, sejam feitas de forma parcial. Sobre o amor, descrições parciais são muito corriqueiras. Alguns clientes fazem uma descrição do amor como sendo um sentimento e dizem “o amor é um sentimento sublime, é uma coisa que dá assim no coração, que a gente fica leve por dentro”. Outro, que dá ênfase a parte “comportamental”, chega dizendo “ele diz que me ama, mas para mim, amor é atitude, é a pessoa mostrar que se importa, é tratar bem, é cuidar”. E outras, ainda que sejam minorias, fazem uma análise baseada na cognição e dizem “eu estou amando.. penso nele o dia todo, fico lembrando de cada momento nosso juntos, ele não sai da minha cabeça”. Nenhuma dessas análises está errada, mas todas estão incompletas. Uma análise do amor (como da coragem ou da honra) deve ser feita considerando que quem ama, age de um jeito, pensa de um jeito e sente de um jeito específico. Se juntássemos todas as respostas dadas, teríamos uma resposta muito mais completa. Imagine alguém que dissesse: a gente se ama e o amor é um sentimento sublime, é uma coisa que dá assim no coração, que a gente fica leve por dentro, e ele diz que me ama, me faz lindas declarações, mas também demonstra isso a todo momento, mostra que se importa, me tratar bem, cuida de mim e eu penso nele o dia todo, fico lembrando de cada momento nosso juntos, ele não sai da minha cabeça. Isso ajudaria chegar melhor à primeira resposta: o que é o amor – ainda que, mesmo mais completa, essa resposta variasse um pouco de pessoa para pessoa.

A segunda resposta, se o amor é bom ou ruim, dificilmente seria discutível em nossa cultura – e o motivo disso, deixarei para um outro momento. UMA DISCUSSÃO MAIS POSSÍVEL É SE SE DEDICAR AMOR A QUEM NÃO NOS AMA, VALE A PENA. Há de se considerar que essa discussão se dá, na grande maioria das vezes, em situações em que se está sofrendo por conta de amar alguém. Aí, essa reflexão se faz útil até por questões de sobrevivência – ainda que a análise pode ficar prejudicada por conta das emoções de quem analisa. E de fato, como qualquer outra atividade humana, as decisões mais saudáveis são aquelas tomadas baseadas nas consequências que desejamos alcançar, seja para nós, seja para o coletivo. Como vimos quando analisamos rasamente o conceito de “coragem”, se alguém considera que ela seja ‘não ter medo’ ou se ser corajoso significa ‘agir mesmo estando com medo’, o importante, no final das contas, é saber que consequência tem alguém se lançar desarmado contra um urso pardo ou atravessar um campo de guerra sem estar protegido.

Ainda, é importante ressaltar que os conceitos são limitados. Considerando uma pessoa que diz sentir amor, ela pode sentir, mas não agir? Alguém pode amar os menos afortunados, até chorar quando assiste um deles sofrer, e nunca contribuir com eles? Uma pessoa pode agir em prol de outro sem o amar? Uma pessoa pode não ter medo, mas mesmo assim não viver arriscando sua vida? Ou pode ter muito medo, mas mesmo assim viver arriscando sua vida em situações aterrorizantes? Parece incoerente, mas é assim que somos. Às vezes, o que influencia como agimos é diferente do que influencia o que sentimos ou pensamos. E nessas situações, o conceito, seja de coragem, de honra ou de amor, não conseguirão ser precisos (e, injustamente, chamaremos essas pessoas de hipócritas ou falsas [o que também discutirei em outro momento]). Alguém que sente amor por mim pode agir de um jeito a me fazer mal? Alguém que sente amor por mim pode me esquecer? Alguém que faz muito bem a mim ou que pensa em mim com frequência, só o faz porque me ama? Devo me dedicar a alguém por sentir amor por ela ou por acreditar que ela sente amor por mim?

Por fim, também é necessário perceber se o fato de amarmos tanto alguém e desejar que ela nos ame não nos faz acreditar que ela nos ama da mesma forma.

De toda forma, parece mesmo que AS DECISÕES MAIS SAUDÁVEIS SÃO AQUELAS TOMADAS BASEADAS NAS CONSEQUÊNCIAS QUE DESEJAMOS ALCANÇAR, independente dos sentimentos que nos tomam. E desejar que alguém nos faça feliz pode nos levar a um erro crasso que é transferir para o outro uma responsabilidade que não é dele, pois como diria Freud, “a felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”. E como diria Skinner, “mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente.”

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. PLATÃO. Banquete. Trad. José Cavalcante de Souza. São Paulo: Editora Nova Cultural. Ed. 5. 1991.

Ela mudou e você nem percebeu

– Eu nem falo mais nada. Não adianta.
– Faz quanto tempo que você desistiu de falar com ela, de reclamar, de pedir, de expor o que achava…
– Faz tempo, já. No começo do casamento, eu tentava. Mas toda vez que eu falava, era só grosseria ou, no mínimo, incompreensão, sabe? Ou ela reagia, ou nem escutava o que eu dizia. E ela é assim com todo mundo! Com todo mundo ela age desse jeito!
– Então, faz tempo, anos, que você não tenta mais…
– Pois é..
– Mas você me contou algumas situações em que sua cunhada, duas amigas dela e sua sogra falaram com ela e ela não só os ouviu como comentou com você em casa.
– Foi.
– Existe alguma possibilidade dela ter mudado um pouco?
– Eu duvido.
– Você disse que o relacionamento seria muito melhor se essa comunicação de vocês melhorasse.
– Vixi, ia mudar muito.
– Pode ser, então, que ela esteja mudando, mas que você há muito nem tenta porque, lá atrás, não dava certo?
– Pode ser, apesar de eu não botar muita fé…
– Se você tentar e ela não tiver mudado, vai continuar como está. Mas se ela tiver mesmo mudado, vai melhorar muito, pelo que você disse. Você quer tentar para descobrirmos se ela está mesmo mais aberta?

Esse é um diálogo fictício, mas possível durante uma sessão de terapia. Ele ilustra bem uma forma com que às vezes (ou não tão às vezes) podemos agir. É comum que cada situação nos traga aprendizado de como agir – ou de como deixar de agir – em situações semelhantes no futuro. E assim, o que aprendemos, repetimos uma e outra vez em situações parecidas.

Apesar da situação ilustrada se referir à um relacionamento, o mesmo pode acontecer em qualquer área da nossa vida. Uma criança que sofreu com as risadas da turma em sala de aula quando respondeu errado à professora pode, dez anos depois, na faculdade ou no trabalho, ainda se manter em absoluto silêncio ou evitar a todo custo situações de exposição, mesmo nunca tendo visto desrespeitos assim acontecerem na faculdade ou no trabalho. Uma pessoa que fracassou na tentativa de praticar um esporte pode nunca ter tentado novamente, crendo que “seu dom” era apenas para atividades intelectuais. Um rapaz que, na primeira tentativa de interação social, foi ignorado ou levou um fora, pode não ter tentado interagir nunca mais. Claro que a forma com que fizemos o que fizemos está diretamente ligada ao nosso sucesso nessas situações, mas não totalmente ao resultado. A chacota sofrida não foi culpa do aluno que não soube responder, mas do quanto os coleguinhas gostavam de tirar sarro de quem errava. O fora levado pelo rapaz na festa pode ter sido, por mais persuasivo e agradável que ele tenha sido, resultado de algum problema sério que a pessoa que ele abordou estava tendo naquele dia. Não sabemos.

Uma coisa é certa. Às vezes, a situação muda por completo e nós continuamos a agir como se estivéssemos naquele contexto antigo. Em dois dos exemplos acima, podemos quase ter certeza que foi o que aconteceu. No exemplo inicial, a própria pessoa citou que a companheira não escutava ninguém, que era grossa ou indiferente a ele da mesma forma que era com qualquer outra pessoa, mas que agora ela tem demonstrado que ouve pessoas ao seu redor. O outro caso, da criança que sofreu com as risadas dos coleguinhas na sala de aula, qual a probabilidade de vários colegas de faculdade ou do trabalho rirem e ridicularizarem ele durante uma apresentação, coisa que ele mesmo diz que nunca viu acontecer na faculdade ou no trabalho?

Este mecanismo pode ser a base desde comportamentos que afetem menos a vida pessoal e profissional da pessoa, como em casos simples de timidez, como pode ser o cerne de problemas graves que impedem a pessoa de desenvolver atividades cotidianas simples, como em casos de depressão.

Saber repetir uma ação que deu certo ou evitar uma ação que deu errado em uma situação parecida é aprendizado. Mas nenhum aprendizado é efetivo se desconsideramos analisar sempre o contexto, colocar em prova nossas crenças, testar novamente o que há muito tempo carregamos como certeza. As pessoas ao nosso redor mudam, as situações mudam, nós mudamos. Se não nos atentarmos para esse eterno movimento, a vida poderá trazer aos nossos olhos cegos oportunidades maravilhosas de crescimento e, no fim, ouvirmos: ela mudou e você nem percebeu.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. Caballo, V. E. (2003). Manual de avaliação e treinamento das habilidades sociais. São Paulo: Santos.

Contra a procrastinação, tomate!

Muitas-tarefasO comportamento humano é muito complexo e várias variáveis afetam direta e indiretamente nossos comportamentos no momento em que vamos agir. Estamos sob efeito do local onde estamos no momento de agir, se estamos acompanhados, de quem, o clima, disponibilidade do que precisamos para agir, nosso histórico em relação àquilo que vamos fazer, nossa condição fisiológica, a probabilidade das consequências para o que faremos, sua importância, se a alcançaremos imediatamente ou a longo prazo, etc. Por exemplo, se temos que fazer um trabalho da faculdade, nos influenciará se temos o material de pesquisa em casa ou no ambiente em que estamos, se teremos de ir até a biblioteca ou procurar o material na internet, se vamos fazer sozinhos ou se marcamos com algum colega, se gostamos da disciplina (nosso histórico com esse conteúdo), se estamos com dor de cabeça ou passando mal, se vamos apresentar em sala de aula e gostamos desses momentos, o quanto consideramos importante as atividades da faculdade ou o conhecimento, nosso conceito sobre pessoas estudiosas, se postamos nas redes sociais o que estamos estudando e recebemos feedbacks sobre isso, sobre nossa relação ou comentários dos professores, de como todas essas coisas e muitas outras imagináveis aconteceram ou não em outras vezes que nos colocamos a fazer trabalhos de faculdade. Mas, aqui, analisaremos uma dessas variáveis (ou conjunto delas) em específico: o tempo (e assim, quanto trabalho dispensaremos) em fazer essa coisa.

agoradepoisEm primeiro lugar, podemos dizer que, sempre que fazemos uma coisa, estamos escolhendo, porque sempre há outras coisas que não conseguiremos fazer ao mesmo tempo e por isso as abandonaremos. Quando estamos assistindo TV, estamos deixando de ler; quando dormimos, estamos deixando de conversar; quando saímos com os amigos, estamos deixando de estar com nossa família.Na verdade, enquanto fazemos qualquer coisa, estamos deixando de fazer várias outras. Essas outras coisas que não podemos fazer ao mesmo tempo se chamam comportamentos concorrentes. É o famoso “não dá pra assoviar e chupar cana ao mesmo tempo”. Por isso, sempre escolhemos baseados em um complexo conjunto de variáveis – alguns, não todos, descritos ali acima – que fazem com que uma atividade “vença a outra” na nossa preferência naquele momento. Uma dessas variáveis importantes é o trabalho que ela nos dá e o tempo que ela nos toma. Aqui chamaremos isso de “custo”. Na procrastinação, o que geralmente ocorre é que uma atividade de baixo custo vence uma atividade de alto custo, e então vamos deixando para depois, empurrando com a barriga a atividade de alto custo. Isso ocorre, principalmente, porque adiar a atividade de alto custo não nos causa nenhum problema imediato. Se deixamos para depois o “trabalhoso trabalho” da faculdade para assistir aquela série de TV que gostamos e que não tem quase nenhum custo além de se sentar e ligar a TV, não sofreremos penalidade imediata alguma. Se tivermos algum problema com isso, será adiante e apenas, provavelmente, se não entregarmos o trabalho feito. Mas quando se aproximar do momento em que teremos entregar (e se não entregarmos, teremos problema), então, fazemos o trabalho. A procrastinação, neste momento, pode gerar alguns outros problemas: não pesquisamos tanto quanto gostaríamos, não teremos tempo para uma boa revisão, usaremos menos ideias para aprimorar o trabalho do que se tivéssemos começado ele com bastante tempo de antecedência, podem aparecer algumas outras atividades importantes e inadiáveis quando eu decidir fazer o trabalho, etc.

Pensando nisso, foi desenvolvida uma técnica que age basicamente sobre o custo que se tem em fazer um trabalho assim e sobre o efeito dos concorrentes: se dedicar á atividade apenas 25 minutos por vez. Usaram um relógio de cozinha em formato de tomate, esses que a gente usa para marcar e nos avisar do tempo de cozimento dos alimentos. Esse relógio tinha um formato de tomate que girava sobre a própria base, para marcar os 25 minutos de dedicação exclusiva à atividade, e por isso a técnica ficou conhecida como Pomodoro1 (tomate, em italiano). O que ocorre é que dedicar-se dezenas de horas á um trabalho, por exemplo, entrando na internet, procurando artigos relacionados ao trabalho, ler o resumo de cada um deles, imprimi-los (eu ainda tenho dificuldades de ler na tela do computador), ler os artigos, escrever o trabalho, organizar as referências e citações, etc, tem um custo muito alto. É uma disputa injusta, ainda que as consequências pela vida acadêmica sejam maiores (apesar de serem mais a longo prazo), concorrer com o trabalho de assistir TV (com consequências menos importantes, porém imediatas). No entanto, abrir o navegador, buscar e salvar os artigos que der para salvar, durante 25 minutos, tem um custo muito, mas muito menor, e assim a concorrência fica mais justa e fica mais provável que consigamos começar nosso trabalho. pomodoroEm um outro momento, gastamos mais 25 minutos para imprimir os artigos e separá-los por ordem de interesse em leitura, e logo em seguida voltamos a fazer o que estávamos fazendo antes. Depois, em outro momento, tiramos mais 25 minutos para ler um dos artigos. Neste período, você se dedica exclusivamente àquela atividade. Nada de verificar o celular, ligar a TV um pouquinho, pegar outro livro, ir até a cozinha beliscar alguma coisa. Quando percebermos, várias etapas do trabalho já estarão concluídas e já começaremos entrar em contato com algumas consequências imediatas de estar fazendo o trabalho, o que diminuirá o custo total dele e facilitará a continuidade do trabalho, em muitos casos, até não necessitando novas marcações de tempo.

Como terapeuta, ouço muito, em meu consultório, frases do tipo: não é que eu não goste de fazer academia, quando eu já estou lá fazendo, não é difícil… difícil é ir; ou: o problema é pegar o livro, mas quando começo a ler, aí quero terminar o capítulo e ir para outro; ou, quando eu tô em casa, dá uma preguiça sair, mas quando eu ‘tô’ lá com o pessoa, acho o máximo. Em situações assim, um tomate cai bem, ou dizendo de outra forma, essa técnica pode contribuir muito. Não se force a sair – apenas a tomar o banho. Não se force a fazer ao trabalho – apenas a buscar alguns artigos e salvá-los. Não se force a fazer academia – apenas a se vestir para ir até lá ou, se estiver na rua, apenas a parar em frente a academia e entrar. Não se force a ler todo o livro – apenas uma página. O efeito prático dessa pequena mudança tem ajudado várias pessoas por ser uma mudança simples e que não, necessariamente, precise de acompanhamento terapêutico para que você a aplique. Tente um tomate assim por dia e boas contingências!

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

Kerbauy, R.R. (1997). Procrastinação: adiamento de tarefas. Em: R.A. Banaco (Org.), Sobre Comportamento e Cognição, 1, 445-451.

Todorov, J. C. (1971). Concurrent performances: Effect of punishment contingent on the switching response. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 16, 51-62.

Na técnica Pomodoro original, criada nos anos 80 por Francesco Cirillo, o tempo de dedicação às atividades era de 25 minutos cada ciclo com intervalos de 3 a 5 minutos. Depois de 4 ciclos de 25 minutos, a pessoa tinha um descanso de meia hora. O que me propus aqui não foi a replicar a técnica, mas explicar a questão da concorrência e do efeito do custo de resposta sobre o comportamento humano, além de propor a utilização dos princípios da técnica de maneira mais livre.

“Você está bem pior depois da terapia”

Problemas na forma de se comunicar e se relacionar no dia-a-dia, com frequência levam pessoas a procurar a terapia. Estes problemas são conhecidos como problemas de assertividade. Uma pessoa pode agir de forma explosiva, impulsiva, raivosa, depassividadesrespeitosa, exagerada. A comunicação agressiva, de forma geral leva a prejuízos nas relações, sejam pessoais, acadêmicas, profissionais. Pessoas que agem assim magoam, constrangem, machucam, afastam as pessoas com quem se envolvem. Estes, quando chegam à terapia, chegam “empurrados” pelo(a) parceiro(a), pelos pais, pelos filhos(as) que não suportam mais a convivência.

Por outro lado, há pessoas que diante de injustiças, necessidades, dificuldades nas relações, se calam, aceitam, dizem sim onde seria melhor ter dito não. Estes são geralmente citados pelos outros como “pessoa excelente”, “sempre disponível”, “tão prestativo”, “bonzinho”, mas com frequência prejudicam a si mesmos enquanto são um “amor de pessoa” com os outros. Em casos assim, o que é prejudicado, grosso modo, não é o relacionamento (de forma direta e imediata), mas a própria pessoa, que está sempre abrindo mão, engolindo sapos, sendo abusada em favores, fazendo sua parte e a dos outros. Em consequência, chegam à terapia reclamando que não suportam mais o peso de agir assim, não raramente, com quadros de ansiedade, se sentindo fracas, bobas, injustiçadas, abusadas ou cansadas.

Para ambos os casos, a terapia pode ajudar para que a pessoa consiga fazer análises de como ela funciona (por isso o nome é Análise Funcional, que busca compreender a relação entre o contexto em que a pessoa atua, as suas ações, as consequências de suas ações e como estas retroagem sobre o comportamento da pessoa). A terapia também pode contribuir para desenvolver habilidades sociais que, durante a história de vida dessas pessoas, ocorreu de forma a adaptá-las resolvendo imediatamente um problema, mas criando vários outros a longo prazo.

Se não tiver a capacidade de dizer não, o seu sim não significa nada. – Osho

Além das análises indiretas que o cliente me traz ou faz comigo no consultório e das análises diretas que faço a partir da atuação do cliente comigo, um outro “termômetro” que uso para identificar mudanças é o feedback que chegam direta ou, mais frequentemente, indiretamente a partir de familiares, colegas ou parceiros(as). Para os casos de comunicação agressiva, o feedback costuma vir em frases elogiosas. Mas é de se esperar que em grupos que sempre tiveram proveito da passividade de alguém, que quando ela começa a conseguir se impor, descobrir e utilizar seu direito de dizer não, de não aceitar imposições, de opinar contra o que lhe é imposto, reclamar, etc, que quem se beneficiava da passividade, reclame das mudanças. É aquela esposa que não é mais subserviente, o colega de trabalho que não faz mais o seu trabalho e o dos outros, aquele condômino que reclama, aquele amigo que assertividadedeixou de ser “tão generoso”, mas que na verdade só não aceita mais abusos, aquele esposo que não ouve tanta injustiça calado, o estudante que não “carrega todo o grupo nas costas” na hora de fazer o trabalho de faculdade. É comum, nestes casos ouvir “você fez foi piorar depois que começou fazer terapia”. É este um grito indignado com o objetivo de que a pessoa volte a ser como era antes – passiva. Mas quando a pessoa evolui até este ponto e começa a colher os frutos de uma maior consciência e autonomia, geralmente ela não volta ao status anterior e, a médio e longo prazo, não só ela se beneficia, mas os próprios relacionamentos se tornam melhores ainda.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestão de leitura

  1. Caballo, V. E. (2003). Manual de avaliação e treinamento das habilidades sociais. São Paulo: Santos.

Uma excelente maneira de NÃO melhorar seu relacionamento

Uma das recorrentes demandas do trabalho terapêutico são as crises em relacionamentos (namoro, noivado, casamento). Não se pode dizer que algo específico seja causa dos conflitos dentro dessas relações, mas é muito comum que parte importante da solução dos problemas deste tipo passem pela melhoria nas comunicações. Vários autores1 consideram importante que a melhora das habilidades de comunicação, inclusive, antecedam as soluções de problemas que o casal precisa enfrentar (entenda-se aqui “problemas” como situações como a discordância de opinião na criação dos filhos, infidelidade, falta de tempo para atividades em comum, etc).

Mas uma forma específica de comunicação ajuda muito a NÃO melhorar em nada as relações: reclamar do parceiro em público.

É incrível como nosso histórico de aprendizado nos leva a usar da punição, de contingências aversivas, constrangimento, ameaças para resolver problemas que envolvam outra pessoa. O motivo pelo qual nos habituamos a agir assim é que a coerção traz resultados quase que imediatos. É muito mais fácil bater em uma criança que está aprontando que gastar tempo, esforço, planejamento, cuidado esperando que ela haja corretamente e assim ‘alimentar’ essas atitudes nela, principalmente no momento exato em que ela faz algo de que não gostamos. Muito mais fácil e rápido é uma enfática punição: na hora, o problema está resolvido.

E temos aqui dois problemas: 1) como a solução é rápida, isso reforça em nós o comportamento de resolver as coisas desta forma sempre que problemas similares aparecerem e 2) problemas que são resolvidos assim só funcionam bem na presença de quem pune; voltam a ocorrer futuramente; geram sentimentos ruins em quem é coagido; pode gerar reação por parte do transgressor.

conflito de casal

Voltando à forma eficaz de como NÃO melhorar um relacionamento, quando uma pessoa expões os erros do(a) parceiro(a) de forma pública, ela basicamente o faz por dois motivos: como reação à situação aversiva que este(a) companheiro(a) causou anteriormente (uma forma de vingança ou de descontar [essa reação acabou de ser citada como efeito de situações aversivas]) e/ou como uma tentativa de que o(a) parceiro(a) deixe de agir daquela forma que ela não gostou. E aí, nos deparamos com duas formas ineficazes de resolver os problemas. Reagir de forma vingativa a uma atitude do(a) parceiro(a) é fazer girar uma círculo vicioso que em nada ajuda. Um desagrada o outro, esse outro desagrada o primeiro (falando dele em público) e assim seguirão as vinganças. A outra questão é: se ouve exposição pública dos defeitos do outro – seja em uma reunião de colegas da faculdade, em um bar, na igreja, em um aniversário – na tentativa do outro “se tocar” e melhorar, os efeitos dessa exposição podem ser (visto acima) uma mudança temporária por conta do quanto aversivo é ser exposto. Isso nutrirá sentimentos negativos a pessoa que foi exposta em relação à pessoa que o expôs; pode gerar reação negativa; o comportamento que gerou o problema inicial provavelmente voltará a ocorrer; ou a pessoa exposta pode evitar a situação que foi aversiva para ELA, ou seja, deixar de ir em encontros com seu parceiro.

É estranho, mas muito compreensivo, como aprendemos a tentar “esmagar” defeitos em vez de “alimentar” qualidades. Como foi dito, nutrir qualidades leva tempo, cuidado, atenção e esforço. Para tentar oprimir atitudes indesejadas, basta ser agressivo com as palavras, principalmente se tiver plateia. A questão é o quanto essa segunda maneira é uma excelente forma de não melhorar em nada o seu relacionamento. Se é isso que deseja, siga fazendo.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no Centro Médico Bueno – CEMEB
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de Leitura

1. Arias, I. & House, A. (2007). Tratamento cognitivo-comportamental dos problemas conjugais. Em V. Caballo (org.). Manual para o tratamento cognitivo-comportamental dos transtornos psicológicos da atualidade, pp.537-561. São Paulo: Editores Santos. (Trabalho original publicado em 1998).

2. Sidman, M. (2001). Coerção e suas implicações. Trad. Maria Amália Andery & Tereza Maria Sério. Campinas: Livro Pleno.

O Escravo Feliz

Escravo Feliz

A pior escravidão é aquela cujo jugo é mantido a partir de esquemas de reforçamento positivo imediato. Esses reforçadores são pequenos, porém vigorosos na manutenção dos comportamentos alheios que interessam a quem domina. Com frequência, traz prejuízos a longo prazo absurdamente maiores que os “ganhos” imediatos, porém os efeitos mais deletérios deste tipo de escravidão são os sentimentos positivos gerados na imediaticidade das consequências e a sensação de liberdade. Nada mais desgraçado que um escravo feliz e com sensação de liberdade!