Se Macaco Tivesse Instagram

O primatólogo holandês Frans De Waal coordenou um experimento em que dois macacos-prego eram colocados em compartimentos lado a lado para exercer a simples tarefa de pegar uma pedra por uma extremidade da gaiola e entregar ao experimentador na outra extremidade. Feito isso, recebiam uma fatia de pepino como pagamento. Nessa condição simples eles poderiam repetir a tarefa mais de 20 vezes sem problema. Mas quando o experimentador passou a “pagar” o segundo macaco com uma uva (pagamento bem mais saboroso), o primeiro macaco se revoltou, bateu na parede, jogou a fatia de pepino (seu pagamento) no experimentador e não quis mais trabalhar.

Este experimento pode mostrar sobre senso de justiça em primatas e até empatia. Mas quero aqui ser simples em identificar que parece não ser privilégio dos humanos ser afetado pela comparação. O experimento parece muito com um texto sagrado cristão em que um trabalhador que começou trabalhar no começo do dia estava satisfeito com o salário tratado com o patrão até este patrão contratar alguém no final do dia, ou seja, que trabalharia bem menos recebendo o mesmo salário. Parece ser natural que os navegantes das redes sociais sintam-se mal ao comparar o que eles tem ganhado da vida com os que publicam ter ganhado muito mais. Também parece ser natural que alguém se sinta melhor quando compara sua situação com a de alguém em situação bem pior.

Dos laboratórios experimentais ao Instagram, dos primatas não-humanos às literaturas sagradas, parece que o bem estar é afetado pelo ponto de referência. Só fico pensando se macaco tivesse Instagram e passasse o dia se comparando com os outros macacos o quão desgostosos seriam.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestão de leitura

  1. WAAL, Frans de. Eu, primata: porque somos como somos. Tradução Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.