Suicídio: uma análise do contexto

Apenas reconhecendo a existência de pressões coercitivas teremos uma chance de resolver o problema último de desistir (Sidman, M. 2001 p.134)

Vou aqui classificar os motivos comportamentais pelos quais as pessoas desistem da própria vida, em três grandes grupos, inicialmente. Essa classificação é arbitrária e muito variável, dependendo do autor, podendo ser dividida inclusive a partir de aspectos diferentes, como no caso do sociólogo Èmilie Durkheim, do historiador italiano Marzo Barbagli e outros.

O primeiro grupo é resultado de ambientes altamente punitivos. Diante de situações aversivas, coercitivas, punitivas, uma das possibilidades mais correntes é a de fuga ou esquiva da situação. O suicídio é a última fuga de coerções esmagadoras, é a fuga em sua representação maior.

O segundo grupo é resultado da impossibilidade de alcançar seus objetivos, acompanhado por sensações de frustração e incapacidade. Demandas não passíveis de serem satisfeitas e exigências absurdas são fontes de sentimentos de culpa e indignidade. Não alcançando o que é esperado ou cobrado dela, a pessoa se sente péssima por não conseguir. Além de exigências inalcançáveis, há também situações em que o que é cobrado não pode ser alcançado imediatamente por conta da inabilidade, da falta de repertório para resolver. Como quem cobra o faz em uma situação em que não há possilidade de a pessoa se habilitar, aprender, se capacitar, a pessoa sente que é ela mesma um fracasso – age, se esforça, mas não alcança o que deseja ou é simplesmente punida ao tentar. O próprio esforço se torna sinal para punição, logo, a própria tentativa se torna punitiva – e só há uma forma de escapar de si mesma.

Um terceiro grupo, que não é em si um motivo “puro”, mas consequência dos dois anteriores é o suicídio em que a pessoa deseja punir pessoas que a fizeram se sentir como se sente – ou que pelo menos ela julga culpados. O próprio suicídio é, desta forma, uma coerção (contracontrole), um instrumento de punição para a família, amigos, sociedade (agentes punitivos).

As sensações de não pertencimento, de exclusão, de que não se encaixa em lugar algum, assim como a falta de sentido em tentar podem estar frequentemente presentes e acentuarem as sensações de pressão, fracasso, inutilidade. Mas não foram tratadas aqui como um grupo à parte, senão como contingências que estão presentes nos grupos acima. Elas promovem a falta de segurança, confiança, (rede) de apoio, resultado de formulações e descrições que a pessoa faz de si, do mundo e das situações. Elas merecem uma análise à parte.

Assim como qualquer outro comportamento, existe uma multicausação no suicídio pela sobreposição de fatores filogenéticos (biológicos), passando por fatores sociais (relacionamentos), históricos (a história de vida) e condições materiais. O que foi posto aqui tem o sentido de combater com vigor a banalização dos motivos de quem decide finalizar a própria existência. A banalização através de rotulações morais e depreciação da pessoa (julgada como fraca, sem personalidade, sem fé) em nada contribui com os que sofrem de forma tão intensa e honesta a ponto de desejarem a não-existência.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. BARBAGLI, Marzio. (2019). O Suicídio no Ocidente e no Oriente. Trad. Frederico Carotti. Petrópolis: Editora Vozes.
  2. DURKHEIM, Èmilie. (1999). O Suicídio: estudo de sociologia. Trad. Monica Stahel. São Paulo: WMF Martins Fontes.
  3. SIDMAN, Murray (2001). Coerção e suas implicações. Trad. Maria Amália Andery & Tereza Maria Sério. Campinas: Livro Pleno.