Contra a procrastinação, tomate!

Muitas-tarefasO comportamento humano é muito complexo e várias variáveis afetam direta e indiretamente nossos comportamentos no momento em que vamos agir. Estamos sob efeito do local onde estamos no momento de agir, se estamos acompanhados, de quem, o clima, disponibilidade do que precisamos para agir, nosso histórico em relação àquilo que vamos fazer, nossa condição fisiológica, a probabilidade das consequências para o que faremos, sua importância, se a alcançaremos imediatamente ou a longo prazo, etc. Por exemplo, se temos que fazer um trabalho da faculdade, nos influenciará se temos o material de pesquisa em casa ou no ambiente em que estamos, se teremos de ir até a biblioteca ou procurar o material na internet, se vamos fazer sozinhos ou se marcamos com algum colega, se gostamos da disciplina (nosso histórico com esse conteúdo), se estamos com dor de cabeça ou passando mal, se vamos apresentar em sala de aula e gostamos desses momentos, o quanto consideramos importante as atividades da faculdade ou o conhecimento, nosso conceito sobre pessoas estudiosas, se postamos nas redes sociais o que estamos estudando e recebemos feedbacks sobre isso, sobre nossa relação ou comentários dos professores, de como todas essas coisas e muitas outras imagináveis aconteceram ou não em outras vezes que nos colocamos a fazer trabalhos de faculdade. Mas, aqui, analisaremos uma dessas variáveis (ou conjunto delas) em específico: o tempo (e assim, quanto trabalho dispensaremos) em fazer essa coisa.

agoradepoisEm primeiro lugar, podemos dizer que, sempre que fazemos uma coisa, estamos escolhendo, porque sempre há outras coisas que não conseguiremos fazer ao mesmo tempo e por isso as abandonaremos. Quando estamos assistindo TV, estamos deixando de ler; quando dormimos, estamos deixando de conversar; quando saímos com os amigos, estamos deixando de estar com nossa família.Na verdade, enquanto fazemos qualquer coisa, estamos deixando de fazer várias outras. Essas outras coisas que não podemos fazer ao mesmo tempo se chamam comportamentos concorrentes. É o famoso “não dá pra assoviar e chupar cana ao mesmo tempo”. Por isso, sempre escolhemos baseados em um complexo conjunto de variáveis – alguns, não todos, descritos ali acima – que fazem com que uma atividade “vença a outra” na nossa preferência naquele momento. Uma dessas variáveis importantes é o trabalho que ela nos dá e o tempo que ela nos toma. Aqui chamaremos isso de “custo”. Na procrastinação, o que geralmente ocorre é que uma atividade de baixo custo vence uma atividade de alto custo, e então vamos deixando para depois, empurrando com a barriga a atividade de alto custo. Isso ocorre, principalmente, porque adiar a atividade de alto custo não nos causa nenhum problema imediato. Se deixamos para depois o “trabalhoso trabalho” da faculdade para assistir aquela série de TV que gostamos e que não tem quase nenhum custo além de se sentar e ligar a TV, não sofreremos penalidade imediata alguma. Se tivermos algum problema com isso, será adiante e apenas, provavelmente, se não entregarmos o trabalho feito. Mas quando se aproximar do momento em que teremos entregar (e se não entregarmos, teremos problema), então, fazemos o trabalho. A procrastinação, neste momento, pode gerar alguns outros problemas: não pesquisamos tanto quanto gostaríamos, não teremos tempo para uma boa revisão, usaremos menos ideias para aprimorar o trabalho do que se tivéssemos começado ele com bastante tempo de antecedência, podem aparecer algumas outras atividades importantes e inadiáveis quando eu decidir fazer o trabalho, etc.

Pensando nisso, foi desenvolvida uma técnica que age basicamente sobre o custo que se tem em fazer um trabalho assim e sobre o efeito dos concorrentes: se dedicar á atividade apenas 25 minutos por vez. Usaram um relógio de cozinha em formato de tomate, esses que a gente usa para marcar e nos avisar do tempo de cozimento dos alimentos. Esse relógio tinha um formato de tomate que girava sobre a própria base, para marcar os 25 minutos de dedicação exclusiva à atividade, e por isso a técnica ficou conhecida como Pomodoro1 (tomate, em italiano). O que ocorre é que dedicar-se dezenas de horas á um trabalho, por exemplo, entrando na internet, procurando artigos relacionados ao trabalho, ler o resumo de cada um deles, imprimi-los (eu ainda tenho dificuldades de ler na tela do computador), ler os artigos, escrever o trabalho, organizar as referências e citações, etc, tem um custo muito alto. É uma disputa injusta, ainda que as consequências pela vida acadêmica sejam maiores (apesar de serem mais a longo prazo), concorrer com o trabalho de assistir TV (com consequências menos importantes, porém imediatas). No entanto, abrir o navegador, buscar e salvar os artigos que der para salvar, durante 25 minutos, tem um custo muito, mas muito menor, e assim a concorrência fica mais justa e fica mais provável que consigamos começar nosso trabalho. pomodoroEm um outro momento, gastamos mais 25 minutos para imprimir os artigos e separá-los por ordem de interesse em leitura, e logo em seguida voltamos a fazer o que estávamos fazendo antes. Depois, em outro momento, tiramos mais 25 minutos para ler um dos artigos. Neste período, você se dedica exclusivamente àquela atividade. Nada de verificar o celular, ligar a TV um pouquinho, pegar outro livro, ir até a cozinha beliscar alguma coisa. Quando percebermos, várias etapas do trabalho já estarão concluídas e já começaremos entrar em contato com algumas consequências imediatas de estar fazendo o trabalho, o que diminuirá o custo total dele e facilitará a continuidade do trabalho, em muitos casos, até não necessitando novas marcações de tempo.

Como terapeuta, ouço muito, em meu consultório, frases do tipo: não é que eu não goste de fazer academia, quando eu já estou lá fazendo, não é difícil… difícil é ir; ou: o problema é pegar o livro, mas quando começo a ler, aí quero terminar o capítulo e ir para outro; ou, quando eu tô em casa, dá uma preguiça sair, mas quando eu ‘tô’ lá com o pessoa, acho o máximo. Em situações assim, um tomate cai bem, ou dizendo de outra forma, essa técnica pode contribuir muito. Não se force a sair – apenas a tomar o banho. Não se force a fazer ao trabalho – apenas a buscar alguns artigos e salvá-los. Não se force a fazer academia – apenas a se vestir para ir até lá ou, se estiver na rua, apenas a parar em frente a academia e entrar. Não se force a ler todo o livro – apenas uma página. O efeito prático dessa pequena mudança tem ajudado várias pessoas por ser uma mudança simples e que não, necessariamente, precise de acompanhamento terapêutico para que você a aplique. Tente um tomate assim por dia e boas contingências!

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

Kerbauy, R.R. (1997). Procrastinação: adiamento de tarefas. Em: R.A. Banaco (Org.), Sobre Comportamento e Cognição, 1, 445-451.

Todorov, J. C. (1971). Concurrent performances: Effect of punishment contingent on the switching response. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 16, 51-62.

Na técnica Pomodoro original, criada nos anos 80 por Francesco Cirillo, o tempo de dedicação às atividades era de 25 minutos cada ciclo com intervalos de 3 a 5 minutos. Depois de 4 ciclos de 25 minutos, a pessoa tinha um descanso de meia hora. O que me propus aqui não foi a replicar a técnica, mas explicar a questão da concorrência e do efeito do custo de resposta sobre o comportamento humano, além de propor a utilização dos princípios da técnica de maneira mais livre.