“Você está bem pior depois da terapia”

Problemas na forma de se comunicar e se relacionar no dia-a-dia, com frequência levam pessoas a procurar a terapia. Estes problemas são conhecidos como problemas de assertividade. Uma pessoa pode agir de forma explosiva, impulsiva, raivosa, depassividadesrespeitosa, exagerada. A comunicação agressiva, de forma geral leva a prejuízos nas relações, sejam pessoais, acadêmicas, profissionais. Pessoas que agem assim magoam, constrangem, machucam, afastam as pessoas com quem se envolvem. Estes, quando chegam à terapia, chegam “empurrados” pelo(a) parceiro(a), pelos pais, pelos filhos(as) que não suportam mais a convivência.

Por outro lado, há pessoas que diante de injustiças, necessidades, dificuldades nas relações, se calam, aceitam, dizem sim onde seria melhor ter dito não. Estes são geralmente citados pelos outros como “pessoa excelente”, “sempre disponível”, “tão prestativo”, “bonzinho”, mas com frequência prejudicam a si mesmos enquanto são um “amor de pessoa” com os outros. Em casos assim, o que é prejudicado, grosso modo, não é o relacionamento (de forma direta e imediata), mas a própria pessoa, que está sempre abrindo mão, engolindo sapos, sendo abusada em favores, fazendo sua parte e a dos outros. Em consequência, chegam à terapia reclamando que não suportam mais o peso de agir assim, não raramente, com quadros de ansiedade, se sentindo fracas, bobas, injustiçadas, abusadas ou cansadas.

Para ambos os casos, a terapia pode ajudar para que a pessoa consiga fazer análises de como ela funciona (por isso o nome é Análise Funcional, que busca compreender a relação entre o contexto em que a pessoa atua, as suas ações, as consequências de suas ações e como estas retroagem sobre o comportamento da pessoa). A terapia também pode contribuir para desenvolver habilidades sociais que, durante a história de vida dessas pessoas, ocorreu de forma a adaptá-las resolvendo imediatamente um problema, mas criando vários outros a longo prazo.

Se não tiver a capacidade de dizer não, o seu sim não significa nada. – Osho

Além das análises indiretas que o cliente me traz ou faz comigo no consultório e das análises diretas que faço a partir da atuação do cliente comigo, um outro “termômetro” que uso para identificar mudanças é o feedback que chegam direta ou, mais frequentemente, indiretamente a partir de familiares, colegas ou parceiros(as). Para os casos de comunicação agressiva, o feedback costuma vir em frases elogiosas. Mas é de se esperar que em grupos que sempre tiveram proveito da passividade de alguém, que quando ela começa a conseguir se impor, descobrir e utilizar seu direito de dizer não, de não aceitar imposições, de opinar contra o que lhe é imposto, reclamar, etc, que quem se beneficiava da passividade, reclame das mudanças. É aquela esposa que não é mais subserviente, o colega de trabalho que não faz mais o seu trabalho e o dos outros, aquele condômino que reclama, aquele amigo que assertividadedeixou de ser “tão generoso”, mas que na verdade só não aceita mais abusos, aquele esposo que não ouve tanta injustiça calado, o estudante que não “carrega todo o grupo nas costas” na hora de fazer o trabalho de faculdade. É comum, nestes casos ouvir “você fez foi piorar depois que começou fazer terapia”. É este um grito indignado com o objetivo de que a pessoa volte a ser como era antes – passiva. Mas quando a pessoa evolui até este ponto e começa a colher os frutos de uma maior consciência e autonomia, geralmente ela não volta ao status anterior e, a médio e longo prazo, não só ela se beneficia, mas os próprios relacionamentos se tornam melhores ainda.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestão de leitura

  1. Caballo, V. E. (2003). Manual de avaliação e treinamento das habilidades sociais. São Paulo: Santos.