O amor faz mal?

O nome que se dá as coisas, com frequência, diminui muito a possibilidade que temos de analisar o que ocorre e seus efeitos sobre quem está envolvido. Rótulos como patriotismo, honra, coragem, sinceridade, amor, entre centenas de outros, faz com que, ao usá-los ou ouvi-los, simplesmente os consideremos bons ou ruins, ou consideramos que eles tem um efeito ou outro, sem nem sequer fazer uma mínima análise sobre eles. Ou alguém diria que coragem é algo ruim?

Só tomando o termo “coragem” para fazer uma pequena análise, corajoso é quem não tem medo? Ou corajoso é quem tem medo, mas supera esse medo e avança apesar dele? Coragem é sempre bom? E se um homem desarmado tiver coragem de enfrentar um urso pardo? Ou coragem de atravessar uma rodovia de alta velocidade e movimentada sem olhar para os lados? Ou até mesmo coragem de entrar em uma comunidade, sem colete, e andar por suas ruas, entre tiros cruzados, em um dia de tiroteio entre a polícia e traficantes? Podemos concluir duas coisas, que (1) o conceito de coragem pode mudar de uma pessoa para outra, ainda que, dentro de uma mesma cultura, esse conceito coincida em muitos aspectos, para pessoas diferentes e que (2) coragem pode ser algo bom ou ruim se passamos a analisar as consequências que a utilização da coragem pode trazer para a pessoa em cada situação em particular.

O amor já passou pelo crivo de análises importantes ao longo te toda a história – pelo menos de análise sobre “o que é o amor” (um exemplo clássico é a análise do texto grego O Banquete , de Platão). Talvez, fruto dessas análises, encontradas algumas respostas, tais respostas sejam assimiladas e, pelo menos para o indivíduo dentro de um grupo onde essa explicação já foi dada, voltar a analisar o que é o amor, não seja importante ou frequente. A segunda análise – se o amor é bom ou ruim, é uma análise ainda menos frequente e é, geralmente, condicionada a um valor moral já pré estabelecido.

Mas, sem complicações (pelo menos, esse é meu sincero intuito), vou iniciar aqui uma pequena análise baseada, em certa parcela, no que ouço sobre o amor na rotina do meu trabalho.

Sempre que estamos falando sobre algum fenômeno natural humano (aqui, uso o termo ‘natural’ em contraposição ao termo ‘sobrenatural’), é bom que percebamos pelo menos três aspectos desse fenômeno: as ações que estão implicadas (como a pessoa age), a parte cognitiva (como a pessoa pensa) e as emoções (como a pessoa se sente). Porém, é frequente que as análises, no dia-a-dia, sejam feitas de forma parcial. Sobre o amor, descrições parciais são muito corriqueiras. Alguns clientes fazem uma descrição do amor como sendo um sentimento e dizem “o amor é um sentimento sublime, é uma coisa que dá assim no coração, que a gente fica leve por dentro”. Outro, que dá ênfase a parte “comportamental”, chega dizendo “ele diz que me ama, mas para mim, amor é atitude, é a pessoa mostrar que se importa, é tratar bem, é cuidar”. E outras, ainda que sejam minorias, fazem uma análise baseada na cognição e dizem “eu estou amando.. penso nele o dia todo, fico lembrando de cada momento nosso juntos, ele não sai da minha cabeça”. Nenhuma dessas análises está errada, mas todas estão incompletas. Uma análise do amor (como da coragem ou da honra) deve ser feita considerando que quem ama, age de um jeito, pensa de um jeito e sente de um jeito específico. Se juntássemos todas as respostas dadas, teríamos uma resposta muito mais completa. Imagine alguém que dissesse: a gente se ama e o amor é um sentimento sublime, é uma coisa que dá assim no coração, que a gente fica leve por dentro, e ele diz que me ama, me faz lindas declarações, mas também demonstra isso a todo momento, mostra que se importa, me tratar bem, cuida de mim e eu penso nele o dia todo, fico lembrando de cada momento nosso juntos, ele não sai da minha cabeça. Isso ajudaria chegar melhor à primeira resposta: o que é o amor – ainda que, mesmo mais completa, essa resposta variasse um pouco de pessoa para pessoa.

A segunda resposta, se o amor é bom ou ruim, dificilmente seria discutível em nossa cultura – e o motivo disso, deixarei para um outro momento. UMA DISCUSSÃO MAIS POSSÍVEL É SE SE DEDICAR AMOR A QUEM NÃO NOS AMA, VALE A PENA. Há de se considerar que essa discussão se dá, na grande maioria das vezes, em situações em que se está sofrendo por conta de amar alguém. Aí, essa reflexão se faz útil até por questões de sobrevivência – ainda que a análise pode ficar prejudicada por conta das emoções de quem analisa. E de fato, como qualquer outra atividade humana, as decisões mais saudáveis são aquelas tomadas baseadas nas consequências que desejamos alcançar, seja para nós, seja para o coletivo. Como vimos quando analisamos rasamente o conceito de “coragem”, se alguém considera que ela seja ‘não ter medo’ ou se ser corajoso significa ‘agir mesmo estando com medo’, o importante, no final das contas, é saber que consequência tem alguém se lançar desarmado contra um urso pardo ou atravessar um campo de guerra sem estar protegido.

Ainda, é importante ressaltar que os conceitos são limitados. Considerando uma pessoa que diz sentir amor, ela pode sentir, mas não agir? Alguém pode amar os menos afortunados, até chorar quando assiste um deles sofrer, e nunca contribuir com eles? Uma pessoa pode agir em prol de outro sem o amar? Uma pessoa pode não ter medo, mas mesmo assim não viver arriscando sua vida? Ou pode ter muito medo, mas mesmo assim viver arriscando sua vida em situações aterrorizantes? Parece incoerente, mas é assim que somos. Às vezes, o que influencia como agimos é diferente do que influencia o que sentimos ou pensamos. E nessas situações, o conceito, seja de coragem, de honra ou de amor, não conseguirão ser precisos (e, injustamente, chamaremos essas pessoas de hipócritas ou falsas [o que também discutirei em outro momento]). Alguém que sente amor por mim pode agir de um jeito a me fazer mal? Alguém que sente amor por mim pode me esquecer? Alguém que faz muito bem a mim ou que pensa em mim com frequência, só o faz porque me ama? Devo me dedicar a alguém por sentir amor por ela ou por acreditar que ela sente amor por mim?

Por fim, também é necessário perceber se o fato de amarmos tanto alguém e desejar que ela nos ame não nos faz acreditar que ela nos ama da mesma forma.

De toda forma, parece mesmo que AS DECISÕES MAIS SAUDÁVEIS SÃO AQUELAS TOMADAS BASEADAS NAS CONSEQUÊNCIAS QUE DESEJAMOS ALCANÇAR, independente dos sentimentos que nos tomam. E desejar que alguém nos faça feliz pode nos levar a um erro crasso que é transferir para o outro uma responsabilidade que não é dele, pois como diria Freud, “a felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”. E como diria Skinner, “mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente.”

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. PLATÃO. Banquete. Trad. José Cavalcante de Souza. São Paulo: Editora Nova Cultural. Ed. 5. 1991.