Eu não sou bonito, mas…

Eu sou feio. E não tem problema. Não é minha melhor característica mesmo. Tenho outras que talvez valham mais que essa, pelo menos para mim: me procupo em não fazer mal propositadamente às pessoas, tento usar a educação que minha mãe me ensinou, busco ser honesto, alimento minha fome por cultura com livros que considero bons, filmes, séries, documentários, gosto de aprender coisas novas, sou divertido, calmo. Não é meu objetivo ficar advogando em causa própria. Mas não acho que beleza seja a maior qualidade de uma pessoa. Se for, essa pessoa deve ser bem desinteressante, ou interessante para poucas pessoas. E é incrível como quando conversos com as pessoas sobre o que elas gostam em seus amigos, seus pais, nas pessoas amadas, elas citam características que não têm a ver com as características físicas. Parece que esse não é mesmo o atributo que mais valorizamos em uma pessoa.

Além do que, quando uma pessoa é divertida, culta, se esforça para manter a calma em situações difíceis, é uma boa amiga, etc, estamos falando de características que são mérito dessa pessoa. Enquanto que quando falamos de caraterísticas físicas, estamos falando de algo que, ainda que alguém considere importante, não é mérito de quem a tem (não entrarei na discussão sobre cuidados com o corpo, maquiagens e vestimentas). Parece com alguém que acha ser qualidade ter nascido em algum lugar específico, e me recordo do gande humorista português Ricardo Araújo Pereira que, em um texto maravilhoso diz: “Nutro sincero fascínio por quem se orgulha do sítio em que nasceu. Pessoalmente, tenho dificuldade em orgulhar-me das coisas que me acontecem por casualidade”.

Nos dias atuais, há um combate contra a ditadura da beleza que ao meu ver se justifica muito. Afinal, as imposições de beleza sempre partem de padrões absurdos, crués e questionáveis. Deixarei para outro texto o que é belo ou não e como a beleza varia dependendo muito do lugar, época , cultura, etc. A questão é que essa luta antiditatorial, raras, mas agudas vezes, dá um tiro pela colatra que sempre acerta o próprio pé. Eis a frase ruim: Não ligue para as capas de revista (até aí tudo bem. Mas completa…) Você é linda!“. Quando se diz isso, está afirmando exatamente o contrário do que se combate: que a beleza física é importante. E o pior: com frequência, as pessoas tem uma noção de beleza física (repito que o que beleza signfica não cabe nesse texto) e de que essa não é uma característica que elas carregam. Alguém argumentaria de que essa frase está falando de outros tipos de beleza, mas isso não é verdade. Senão, ela diria: você não é bonita fisicamente, mas tem o caráter exuberante. E não é isso que ela diz, e nem é nesses contextos. É exatamente usando a capa da revista (que não tem fotos do caráter da modelo) como referência.

Sem estender mais, acho que quem tem alguma intenção de combater os padrões de beleza em prol das qualidades humanas que realmente importam para a maioria das pessoas e na maioria das relações deveria mudar o mote para: Não ligue para as capas de revista. Existem dezenas de características humanas mais importantes que a beleza física. Além do que a capa de revista é pura manipulação digital das fotos. Esse sim, o artista que manipula tão bem o Photoshop tem uma qualidade que é mérito dele e do qual ele deve se orgulhar.

 

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO