Autocontrole e custo do comportamento

Uma das variáveis importantes que influenciam nosso comportamento é o custo que temos, o trabalho que dispendemos para conseguir algo. Sabendo muito bem disso, as empresas de aplicativos para smartphones se empenham ao máximo, gastam até milhões de dólares para reduzir um único clique na utilização de seus “apps”. As lojas online criam mecanismo de “compre com um clique”, onde, depois de um cadastro dos dados, é só escolher o que deseja e clicar uma única vez. Nas próximas compras, não é necessário preencher dados de compra, sejam pessoais, dados da entrega ou da forma de pagamento. O melhor aplicativo é aquele que você clica uma vez no ícone e ele já começa a funcionar. É o que causa menos desistência.

Se um custo maior de esforço pode nos fazer desistir de uma atividade, obviamente, esse recurso pode ser usado como estratégia de autocontrole. Autocontrole se trata de identificar as variáveis que influenciam o comportamento e agir sobre elas para alterar a probabilidade do comportamento ocorrer. E a “força de vontade”? Quando pergunto o que isso quer dizer, só trocam o nome (determinação, decisão firme ou outro rótulo) ou relatam manipular variáveis privadas (lembrar do propósito que fez, pensar no mal que pode fazer agir daquela forma, lembrar os danos sofridos). Para o primeiro caso, mudar o nome não é explicar. Para o segundo, sabemos que elas podem gerar estímulos para o comportamento, mas não ser suficiente. As empresas de aplicativos sabem disso muito bem.

Ampliar o autocontrole ampliando o custo que temos para fazer algo se mostra muito efetivo em várias situações. Há mais probabilidade de o autocontrole falhar numa recaída com o ex se você tiver o contato dele no celular e seguir suas redes sociais. O autocontrole tem mais chances de falhar na dieta caso você tenha fácil acesso à alimentos insalubres e altamente calóricos adquiridos na última compra. O autocontrole sobre o uso da droga da sua preferência pode ser menos efetivo se você guardou um pouco na gaveta ou se ainda tem na agenda os contatos que fazem delivery.

Considere a facilidade/dificuldade para agir de uma forma quando pensar em aumentar o autocontrole.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestão de leitura

  1. SOARES, P. G. et al. (2017) Custo da resposta: Como tem sido definido e estudado?. Perspectivas,  São Paulo ,  v. 8, n. 2, p. 258-268.

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