O Inferno são os Outros!(?)

Analisando a situação social do homem, o historiador israelense Yuval Harari afirma em seu livro 21 Lições Para o Século 21 que “Os humanos são animais sociais, e daí que sua felicidade depende em grande medida de seus relacionamentos com outros”. Também atribuindo grande importância para as relações, o filósofo francês Jean Paul Sartre escreve uma peça em 1944 intitulada Entre Quatro Paredes em que três pessoas, depois da morte, são levadas a ficarem em uma sala, em confinamento. Não passa muito tempo de convivência e um deles chega à conclusão que “O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno… são os outros!”.

As pessoas não são felicidade ou inferno em si, mas obviamente são potenciais fontes desses sentimentos. Com elas nos relacionamos, e essas relações têm consequências que podem ser pouco importantes, mas também podem ser felizes ou infernais. E o mais sério: cada nova relação traz, raramente de forma consciente, nosso hitórico das relações passadas, desde as mais primórdias às mais recentes. Por fim, quem se relaciona conosco, se relaciona com todo o nosso histórico de vida, enquanto que fazemos o mesmo quando nos relacionamos: nós reagimos ao nosso próprio histórico e à pessoa e seu histórico de relações. É um emaranhado tão grande de contingências pelas quais já passamos, como agimos lá, que consequências das mais sutis às mais nítidas agiram sobre nossa própria ação, nos tornando quem somos agora. Nada é tão simples.

Harari é exato quando diz que somos “animais socais” e que a nossa felicidade depende “em grande medida” (já que também depende de circustâncias materiais e biológicas) dos nossos “relacionamentos”, e não necessariamente que depende dos outros. Se Harari tivesse escrito juntamente com Skinner a peça Entre Quatro Paredes, provavelmente, no lugar de “O inferno são os outros” estaria escrito “O inferno é o produto emocional de contingências (relacionamentos) cujas consequências são continuamente aversivas”.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. SKINNER, B. F. (1991). Questões recentes na análise comportamental. Campinas, SP: Papirus.
  2. HARARI, N. Y. (2018). 21 lições para o século 21. Tradução de Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras.
  3. SARTRE, J. P. (2008). Entre Quatro Paredes. 4ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

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