Sempre temos outra opção

Se há algo que sempre me chama atenção em filmes e séries é a frequência com que frases como “você não me deixou opção”, “eu não tive opção” ou “eu não tive outra escolha” são usadas. E me chama a atenção por não ser uma frase que remete à realidade humana e é usada de má-fé. O fato é que cada comportamento nosso é um comportamento de escolha e, em vez de estar fazendo o que estamos fazendo, poderíamos estar fazendo alguma outra coisa. Parece que sempre temos escolha. E é aqui que você que me lê pode começar a discordar? Na verdade, em cada situação sempre temos escolha, às vezes mais opções, às vezes menos, mas sempre temos. Vou eximir aqui pessoas que estejam em casos clínicos excepcionais, como os que estão em coma. Mas me lembro que no filme Menina de Ouro (um filme de Clint Estwood, 2004) a protagonista, uma lutadora de boxe, sofre um acidente durante uma luta e perde todos os motimentos do corpo, ficando apenas com os movimentos do rosto funcionando. Ainda assim, ela tinha opções: viver ou morrer. Mas como se mataria se ninguém a ajudasse? Uma das opções que ela encontrou foi mastigar a própria língua. Sei que a cena é pesada, mas é assim a condição humana. Diante de cada situação, temos escolhas. Talvez, não queiramos assumir que elas existam, mas isso já é uma escolha: escolho uma das opções ou escolho dizer que não havia outra – mas havia. E se fazemos isso, fazemos de má-fé, para não assumir que as consequências do que escolhi foram fruto da minha escolha. E se trata disso: o peso das escolhas não está na beleza das possibilidades, mas em ter que assumir as consequências do que se escolhe. Até diante de ameaças do tipo: “faça isso ou eu atiro em você”, o próprio ameaçador está dizendo que você tem opção e qual será a consequência se você escolher a opção que o desagrada.

Pense nisso na próxima vez que assistir um filme ou série e ouvir “você não me deixou opção”, “eu não tive opção” ou “eu não tive outra escolha”. E quando agir de uma certa forma, o fato é que o fez por conta de não querer arcar com os custos ou as consequências da outra opção.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. SARTRE, J. P. (1973). O Existencialismo é um Humanismo. Coleção Os Pensadores – Vol. 45. São Paulo: Abril Cultural.
  2. SKINNER, B. F. (2000). Ciência e comportamento humano. Tradução de J.C Todorov e R. Azzi. São Paulo: Martins Fontes.

Deixe um comentário