Os Conflitos estão nas situações

Estamos sempre fazendo escolhas. Algumas são triviais, outras importantes, algumas são simples, outras são complexas. Vão desde “termino de assistir esse filme e depois vou ao banheiro ou vou agora que me deu vontade?” até “aceito ou não desligar os aparelhos que mantém meu pai vivo, mesmo sem possibilidade de reversão do quadro clínico dele?”. É diante de escolhas importantes que surgem conflitos sobre que opção escolher.

Os conflitos parecem ser internos porque pensamos sobre eles e como resolvê-los (e pensar é uma atividade privada) e porque sentimos coisas enquanto estamos nessa situação (e sentir, novamente é uma atividade privada, que ocorre pele adentro). Mas se prestarmos mais atenção, percebemos que os conflitos que temos são conflitos da nossa relação com algo externo: ir ao banheiro, ficar assistindo o filme, desligar os aparelhos médicos, ter a presença precário do meu pai mais um tempo etc.

Os conflitos ocorrem em três tipos de situações de acordo com as consequências que podem ter. A primeira são situações em que existem opções em que as consequências são boas independente do que se escolha, mas escolhendo uma, automaticamente, se perde a outra. Viajar nas férias ou trocar de carro? Ir ao show da banda preferida na cidade vizinha ou ao casamento do melhor amigo? Este é o conflito menos ruim porque estamos escolhendo entre coisas que gostaríamos, e só se torna um problema se a escolha que eu fizer der errado. Se eu viajar e a viajem for péssima, se eu for ao show e chover e o show ser interrompido na metade. O segundo tipo de conflito é o oposto: em que ambas opções terão consequêcias ruins, como escolher entre entregar os bens a dois assaltantes desarmados ou tentar resistir/fugir correndo o risco de ser agredido e perder os bens – como dizem, escolher entre a cruz e a espada, expressão que remete aos opositores do regime romano no primeiro século que precisavam escolher entre desafiar em luta a espada dos soldados ou se entregarem à crucificação como criminosos. O terceiro tipo de conflito diz respeito à opção em que a escolha leva ao mesmo tempo a consequências positivas e negativas importantes. Para alguns, o casamento é uma escolha assim. Escolher trabalhar em um segundo emprego é outro exemplo: teremos mais dinheiro, porém mais cansaço e menos tempo para coisas que podem ser importantes.

O objetivo aqui não é discutir qual a melhor escolha nessas situações, nem necessariamente como escolher, mas aprender olhar de forma mais consciente de onde vêm os conflitos que sentimos como internos. Claro que nossas crenças e valores estão implícitos nos conflitos, mas não como causa deles, senão como o que faz as consequências das nossas escolhas serem vistas como positivas ou negativas, tema a que podemos voltar com a atenção merecida em uma futura conversa.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestão de leitura

  1. Rangé, B. P. (1995). Bases filosóficas, históricas e teóricas da psicoterapia comportamental e cognitiva. In: (Rangé, org). Psicoterapia comportamental e cognitivo

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