Ansiedade é algo bom (e desagradável)

Talvez, a queixa mais recorrente no consultório de psicologia atualmente seja a ansiedade. Quando ela não é o principal motivo que leva a pessoa a procurar terapia, por certo, ela está presente secundariamente em outras demandas: em problemas conjugais, no trabalho, na faculdade, relacionamentos amorosos, etc.

E parece que por alguns motivos culturais ocorreram dois processos em relação à ansiedade. O primeiro é uma maior intolerância à ansiedade de forma geral – por ela ser desagradável – e consequência disso, uma classificação de toda ansiedade como uma doença.

Porém, a ansiedade é algo “bom”, é uma reação a situações de risco ou perigo em potencial. É uma preparação do nosso organismo a essas situações, com o objetivo imediato de fuga ou enfrentamento. Sua função fica muito mais nítida quando olhamos situações mais primitivas, quando ainda não tínhamos a garantia de um teto sobre nossas cabeças ou do alimento para a próxima refeição e éramos cercados de perigos imediatos. Diante de um sinal de risco – um som que sinalizasse uma tribo inimiga na floresta enquanto procurávamos nosso alimento – nosso cérebro enviava um sinal para glândulas específicas que nos preparavam para fugir ou atacar. Nosso coração e nossa respiração aceleravam oxigenando mais os grandes músculos que, por sua vez ficavam mais irrigados. O sangue migrava de algumas partes do corpo para outras. Nosso sistema digestivo dava sinais de que queria se esvaziar, começávamos a suar, entre tantas outras preparações. Ainda hoje, nosso corpo reage assim. Porém os riscos atuais são menos imediatos: uma entrevista de emprego, um seminário para apresentar, uma prova de concurso, um problema para resolver no trabalho ou com o cônjuge. No entanto, nosso corpo continua a nos preparar de forma idêntica à que fazia há centenas ou milhares de anos. Existem sinais que apontam para esse risco, às vezes, em forma de elos, como a vinheta de abertura do programa televisivo de domingo à noite pode nos sinalizar que o fim de semana acabou, que amanhã é segunda, que tem um trabalho para ser entregue na terça e eu nem peguei no material. Mesmo sem “lembrar” disso tudo, pode surgir uma ansiedade no domingo à noite sem que eu perceba diretamente o motivo. Mas isso não é doença. Pelo contrário. Significa que meu organismo está funcionando perfeitamente – e é hora de enfrentar o trabalho!

Algo ser desagradável não significa que algo esteja errado. Sentir um enorme frio é desagradável, mas serve para nos levar a agasalhar. Sentir que algo nos queima é desagradável, mas sinaliza que devemos nos proteger. Com a ansiedade é igual.Porém, a ansiedade se torna um problema quando, em vez de ela nos preparar para um problema que devemos resolver e nos mobilizar a isso, ela nos paralisa. Ela também é um problema quando o que temos que resolver não é um problema real, mas uma descrição errada que fazemos sobre o risco. E por fim, quando ela aponta para algo que não tem solução. No Transtorno de Ansiedade, esses fatores aparecem juntos. Geralmente, a terapia tem excelentes resultados nesses casos.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. COELHO, Nilzabeth Leite, & TOURINHO, Emmanuel Zagury. (2008). O conceito de ansiedade na análise do comportamento. Psicologia: Reflexão e Crítica, 21(2), 171-178.

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