Tristeza ainda existe

Sorrisos, creme dental e tudo,
e por que é que a felicidade
anda me bombardeando?
diga, Zezé.

É pra provar que ninguém mais tem
o direito de ser infeliz,
viu, Dodó?

Tom Zé, na música Dodó e Zezé (1973)

Se eu perguntar “Ainda existe tristeza?” vai soar estranho?

Olhando ao redor, a tristeza vem sendo cada dia mais substituída pela depressão. Não é que as pessoas estejam deixando de ficar simplesmente tristes e passando a estar cada vez mais deprimidas. Mas ao que tudo evidencia, existe uma confusão ou preferência de tratar essas duas coisas como uma só ou de que, preferencialmente, quando o humor de alguém está para baixo, que isso seja sempre depressão e nunca tristeza.

O ser humano sadio (não que existe um ponto exato em que algo deixa de ser “saúde” e passa a ser “doença”) é aquele que diante de coisas “boas” se sente feliz, diante de situações constrangedoras sente vergonha, diante de situações arriscadas sente medo, e diante de situações de perdas sente-se triste. Nesse sentido, diante da perda de um emprego que gostava, de um relacionamento que era importante, diante da morte de uma pessoa querida é normal que a pessoa sinta-se triste. Os casos onde fica clara a doença, um transtorno ou algo do tipo são exatamente os casos em que o contexto e a reação não são coerentes. Imagine uma pessoa diante da perda de um emprego que lhe era importante, da morte de uma pessoa amada, que essa pessoa não pare de rir e se sentir eufórica, empolgada, animada. Imagine o contrário, alguém que, por mais tudo esteja indo bem – os relacionamento que são importantes para ela, ganhou aumento no emprego, ganhou algum prêmio que queria – sente-se triste, sem ânimo, chorosa, com vontade de estar morta ou até de se matar. O primeiro caso pode configurar, observados outros sintomas, um caso de crise de mania em um Transtorno Bipolar. O segundo caso pode configurar, também observados outros sintomas, um Transtorno Depressivo, por exemplo.

Existem várias hipóteses sobre porque até os casos de reações “normais” de tristeza estejam sendo tratados como transtorno, como doença, como patologia. Mas essa discussão fica para um outro texto. A questão é que perdas importantes nos levam a uma reação normal de tristeza ou a uma reação de tristeza normal. Com ressalva às palavras usadas, se estamos reagindo assim é sinal de saúde mental e não o contrário.

Mas isso faz surgir uma outra questão, porque se a tristeza é tratada como depressão, como uma doença mesmo quando não é, isso sugere que ela deve ser tratada. Sendo assim, a segunda pergunta que pode parecer estranha é “Sentir tristeza ainda é permitido?”. Os livros de auto-ajuda (se você está comprando um livro para te ajudar, essa ajuda não é “auto”), as redes sociais que idolatram a felicidade e que mostram que todos estão felizes o tempo todo, que punem qualquer sinal de tristeza ou sensação negativa parecem ter transformado a felicidade em obrigação e não em uma possibilidade – que tem custos e é temporária.

Esse pequeno texto (o nosso momento histórico trata qualquer texto com mais de 140 caracteres como textão) é uma simples intenção de lembrar: se você está feliz diante de situações boas para você, com raiva diante de situações injustas, apaixonado diante de situações apaixonantes e triste diante de situações de perdas importantes, você está saudável, você está funcionando bem.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno – Goiânia, GO.
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. HORWITZ, A. V.; WAKEFIELD, J. C. (2010). A tristeza perdida: como a psiquiatria transformou a depressão em moda. São Paulo: Summus.


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