Uma excelente maneira de NÃO melhorar seu relacionamento

Uma das recorrentes demandas do trabalho terapêutico são as crises em relacionamentos (namoro, noivado, casamento). Não se pode dizer que algo específico seja causa dos conflitos dentro dessas relações, mas é muito comum que parte importante da solução dos problemas deste tipo passem pela melhoria nas comunicações. Vários autores1 consideram importante que a melhora das habilidades de comunicação, inclusive, antecedam as soluções de problemas que o casal precisa enfrentar (entenda-se aqui “problemas” como situações como a discordância de opinião na criação dos filhos, infidelidade, falta de tempo para atividades em comum, etc).

Mas uma forma específica de comunicação ajuda muito a NÃO melhorar em nada as relações: reclamar do parceiro em público.

É incrível como nosso histórico de aprendizado nos leva a usar da punição, de contingências aversivas, constrangimento, ameaças para resolver problemas que envolvam outra pessoa. O motivo pelo qual nos habituamos a agir assim é que a coerção traz resultados quase que imediatos. É muito mais fácil bater em uma criança que está aprontando que gastar tempo, esforço, planejamento, cuidado esperando que ela haja corretamente e assim ‘alimentar’ essas atitudes nela, principalmente no momento exato em que ela faz algo de que não gostamos. Muito mais fácil e rápido é uma enfática punição: na hora, o problema está resolvido.

E temos aqui dois problemas: 1) como a solução é rápida, isso reforça em nós o comportamento de resolver as coisas desta forma sempre que problemas similares aparecerem e 2) problemas que são resolvidos assim só funcionam bem na presença de quem pune; voltam a ocorrer futuramente; geram sentimentos ruins em quem é coagido; pode gerar reação por parte do transgressor.

conflito de casal

Voltando à forma eficaz de como NÃO melhorar um relacionamento, quando uma pessoa expões os erros do(a) parceiro(a) de forma pública, ela basicamente o faz por dois motivos: como reação à situação aversiva que este(a) companheiro(a) causou anteriormente (uma forma de vingança ou de descontar [essa reação acabou de ser citada como efeito de situações aversivas]) e/ou como uma tentativa de que o(a) parceiro(a) deixe de agir daquela forma que ela não gostou. E aí, nos deparamos com duas formas ineficazes de resolver os problemas. Reagir de forma vingativa a uma atitude do(a) parceiro(a) é fazer girar uma círculo vicioso que em nada ajuda. Um desagrada o outro, esse outro desagrada o primeiro (falando dele em público) e assim seguirão as vinganças. A outra questão é: se ouve exposição pública dos defeitos do outro – seja em uma reunião de colegas da faculdade, em um bar, na igreja, em um aniversário – na tentativa do outro “se tocar” e melhorar, os efeitos dessa exposição podem ser (visto acima) uma mudança temporária por conta do quanto aversivo é ser exposto. Isso nutrirá sentimentos negativos a pessoa que foi exposta em relação à pessoa que o expôs; pode gerar reação negativa; o comportamento que gerou o problema inicial provavelmente voltará a ocorrer; ou a pessoa exposta pode evitar a situação que foi aversiva para ELA, ou seja, deixar de ir em encontros com seu parceiro.

É estranho, mas muito compreensivo, como aprendemos a tentar “esmagar” defeitos em vez de “alimentar” qualidades. Como foi dito, nutrir qualidades leva tempo, cuidado, atenção e esforço. Para tentar oprimir atitudes indesejadas, basta ser agressivo com as palavras, principalmente se tiver plateia. A questão é o quanto essa segunda maneira é uma excelente forma de não melhorar em nada o seu relacionamento. Se é isso que deseja, siga fazendo.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no Centro Médico Bueno – CEMEB
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de Leitura

1. Arias, I. & House, A. (2007). Tratamento cognitivo-comportamental dos problemas conjugais. Em V. Caballo (org.). Manual para o tratamento cognitivo-comportamental dos transtornos psicológicos da atualidade, pp.537-561. São Paulo: Editores Santos. (Trabalho original publicado em 1998).

2. Sidman, M. (2001). Coerção e suas implicações. Trad. Maria Amália Andery & Tereza Maria Sério. Campinas: Livro Pleno.

Deixe um comentário