Ela mudou e você nem percebeu

– Eu nem falo mais nada. Não adianta.
– Faz quanto tempo que você desistiu de falar com ela, de reclamar, de pedir, de expor o que achava…
– Faz tempo, já. No começo do casamento, eu tentava. Mas toda vez que eu falava, era só grosseria ou, no mínimo, incompreensão, sabe? Ou ela reagia, ou nem escutava o que eu dizia. E ela é assim com todo mundo! Com todo mundo ela age desse jeito!
– Então, faz tempo, anos, que você não tenta mais…
– Pois é..
– Mas você me contou algumas situações em que sua cunhada, duas amigas dela e sua sogra falaram com ela e ela não só os ouviu como comentou com você em casa.
– Foi.
– Existe alguma possibilidade dela ter mudado um pouco?
– Eu duvido.
– Você disse que o relacionamento seria muito melhor se essa comunicação de vocês melhorasse.
– Vixi, ia mudar muito.
– Pode ser, então, que ela esteja mudando, mas que você há muito nem tenta porque, lá atrás, não dava certo?
– Pode ser, apesar de eu não botar muita fé…
– Se você tentar e ela não tiver mudado, vai continuar como está. Mas se ela tiver mesmo mudado, vai melhorar muito, pelo que você disse. Você quer tentar para descobrirmos se ela está mesmo mais aberta?

Esse é um diálogo fictício, mas possível durante uma sessão de terapia. Ele ilustra bem uma forma com que às vezes (ou não tão às vezes) podemos agir. É comum que cada situação nos traga aprendizado de como agir – ou de como deixar de agir – em situações semelhantes no futuro. E assim, o que aprendemos, repetimos uma e outra vez em situações parecidas.

Apesar da situação ilustrada se referir à um relacionamento, o mesmo pode acontecer em qualquer área da nossa vida. Uma criança que sofreu com as risadas da turma em sala de aula quando respondeu errado à professora pode, dez anos depois, na faculdade ou no trabalho, ainda se manter em absoluto silêncio ou evitar a todo custo situações de exposição, mesmo nunca tendo visto desrespeitos assim acontecerem na faculdade ou no trabalho. Uma pessoa que fracassou na tentativa de praticar um esporte pode nunca ter tentado novamente, crendo que “seu dom” era apenas para atividades intelectuais. Um rapaz que, na primeira tentativa de interação social, foi ignorado ou levou um fora, pode não ter tentado interagir nunca mais. Claro que a forma com que fizemos o que fizemos está diretamente ligada ao nosso sucesso nessas situações, mas não totalmente ao resultado. A chacota sofrida não foi culpa do aluno que não soube responder, mas do quanto os coleguinhas gostavam de tirar sarro de quem errava. O fora levado pelo rapaz na festa pode ter sido, por mais persuasivo e agradável que ele tenha sido, resultado de algum problema sério que a pessoa que ele abordou estava tendo naquele dia. Não sabemos.

Uma coisa é certa. Às vezes, a situação muda por completo e nós continuamos a agir como se estivéssemos naquele contexto antigo. Em dois dos exemplos acima, podemos quase ter certeza que foi o que aconteceu. No exemplo inicial, a própria pessoa citou que a companheira não escutava ninguém, que era grossa ou indiferente a ele da mesma forma que era com qualquer outra pessoa, mas que agora ela tem demonstrado que ouve pessoas ao seu redor. O outro caso, da criança que sofreu com as risadas dos coleguinhas na sala de aula, qual a probabilidade de vários colegas de faculdade ou do trabalho rirem e ridicularizarem ele durante uma apresentação, coisa que ele mesmo diz que nunca viu acontecer na faculdade ou no trabalho?

Este mecanismo pode ser a base desde comportamentos que afetem menos a vida pessoal e profissional da pessoa, como em casos simples de timidez, como pode ser o cerne de problemas graves que impedem a pessoa de desenvolver atividades cotidianas simples, como em casos de depressão.

Saber repetir uma ação que deu certo ou evitar uma ação que deu errado em uma situação parecida é aprendizado. Mas nenhum aprendizado é efetivo se desconsideramos analisar sempre o contexto, colocar em prova nossas crenças, testar novamente o que há muito tempo carregamos como certeza. As pessoas ao nosso redor mudam, as situações mudam, nós mudamos. Se não nos atentarmos para esse eterno movimento, a vida poderá trazer aos nossos olhos cegos oportunidades maravilhosas de crescimento e, no fim, ouvirmos: ela mudou e você nem percebeu.

Sobre o Autor
Ricardo R. Borges é Psicólogo Clínico Comportamental – com consultório no CEMEB – Centro Médico Bueno
Especialista em Psicopatologia pela PUC GO

Sugestões de leitura

  1. Caballo, V. E. (2003). Manual de avaliação e treinamento das habilidades sociais. São Paulo: Santos.

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